terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Hotéis antigos e cidade feita de turistas. Fiquei sem saber como eram os habitantes sem as máscaras. Não houve baile nem festa, quem deu as boas vindas no hotelzinho antigo foi uma escada que não tinha fim. Não foi por falta de sorte, tudo era antigo. Talvez neste ponto o lugar ganhava graça.
Veneza, linda como lhe diziam ficou apenas no filme. De tanta neblina era um mistério a outra margem na sutileza embaçada das cores rasuradas pela umidade. A graça estava em atravessar a ponte, unir dois lados do caminho.
O palácio enriquecido emaranhava a vista. A informação subia pelas escadas, cada porta tornava-se um labirinto onde se podia escolher apenas uma opção, seguir todo o trajeto deslumbrando-se pela história.
O lugar parava ali, na praça. Os pombos adestrados subindo pelos braços prendiam a atenção por instantes. Dava para ver a cidade desembocando no centro. Cada ruazinha, das mais estreitas imagináveis, ia parar ali para ver todos os leões esculpidos em bronze, lembrando a glória de um tempo que passou que agora é admirada.
A cidade se afoga aos nossos olhos, sendo engolida pelos degraus que denunciam o fim trágico. Nem mesmo a fama poderá salvá-la das algas que lhe puxam...
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Quando me deparo com uma tentativa frustrada de arte chego a me arrepender, mas não sei onde por as mãos. Então lá estou eu fazendo barulho.
Sinto-me ofendendo a própria crítica. Depois de certo tempo admiro a minha coragem. Constranger a todos. Mesmo sabendo o que é ruim, camuflo a opinião. Um teste para a reação alheia.
Sigo aplaudindo cada erro. Pois na vergonha ainda há ensinamento.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Alguém deveria fazer a brincadeira estúpida, arremessando a bola de gelo contra as costas de alguém mais distraído; pondo-se a correr pelo medo da vingança. Vê-lo em disparada fez subir um calor obrigando-me a tirar o cachecol que já tomava a forma do pescoço.
De tanto ir a Nova York de filme supunha-me íntima, achando tudo muito maior. Na proporção da minha sala, cabia tudo! A Quinta Avenida era uma enorme Visconde de Pirajá salpicada de branco.
Enfreitei a fobia do metrô no terceiro dia, o caos falado em diversas linhas. Havia momentos em que o inglês falhava e eu pedia com a expressão do rosto para que repetissem.
Eu tinha a impressão que o frio não caberia nos dentes, tremendo. Escorreguei algumas vezes na calçada quando o sol aparecia derretendo o gelo.
Conheci tantos museus numa tarde que meus pés poderiam chegar antes em casa, suplicando por descanso, enquanto os olhos se enchiam de cores. Confundia os pintores numa linda ignorância, prestando atenção apenas na beleza de cada detalhe.
Nas roupas esquisitas que desfilavam pelas lojas, confesso que senti vergonha.
Vi garçons cantando e dançando, equilibrando bandejas. Ainda fazíamos planos para o dia seguinte. Quando traziam o pedido eu levava um susto com o tamanho das porções, lembrando inconscientemente do filme do Michael Moore.
Encontrava sempre uma boa surpresa; a multidão que não cansava de andar; imensas lojas de brinquedos com tudo o que eu não herdara dos meus irmãos quando eu era menina.
Antes de dormir desejava-lhe boa noite não querendo dormir. Torcia para o dia de repete ter mais horas. Cada dia era uma despedida. Quis subir no prédio mais alto para garantir ver tudo o que o tempo poderia não permitir. Quando cheguei lá vi a cidade acender em luzes coloridas. Era mesmo maior que meus olhos poderiam ter previsto.
Comi cada pedaço de torta querendo roubar a receita, cheirei cada perfume querendo levar na pele, vesti cada roupa imaginando em meu cabide, levei você comigo com um sorriso nos olhos.
Antes que eu voltasse para o avião pousado em minha cama recebia notícias sempre, e era como se eu estivesse mesmo lá.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Tinha mãos de mímico, falando mais que a própria boca em inquietação constante.
Os gestos argumentavam. Cada dedo tinha alguma razão. Apontava o indicador como se fosse uma arma, mas o gerente nada pode fazer por ele.
O restaurante cheio o interrogava com olhos que não cabiam nas órbitas. Saiu de lá chutando os canteiros, amontoando as notas do cartão de crédito no bolso, deixando cair metade dos outros comprovantes.
O caminho de casa pareceu mais longo aquela tarde. Todos os sinais de trânsito fechavam contra seu favor. Alguma força estranha desafiava sua paciência que já era pouca.
Logo que o nervosismo cessou, tratou de esticar as pernas sobre a poltrona, para o sangue voltar ao lugar certo. Ponderou as tragadas de cigarro para que nenhum vizinho viesse até a porta reclamando do cheiro forte que o cigarro produzia, assim como houve antes no salão repleto de cadeiras ocupadas no restaurante.
Jurou que nunca voltaria. Logo repensou sua promessa pelo salmão que o viciara. Teve vontade de processar o estabelecimento por incentivar o vício, com letras escritas em giz amarelo anunciando “Temos salmão com alcaparras”. Talvez ganhasse muito dinheiro fazendo isso. Mal possuía dinheiro para comer lá, que dirá pagar um advogado. Teve que pendurar esta idéia também.
De tantas idéias aposentadas havia horas em que preferiria ser uma ostra, filtrando uma água bem imunda. Torceu pela outra encarnação ser mais generosa. Pediu ainda forças para resistir ao salmão. Tudo para não olhar para aquele gerente entupido de deselegância.
Por aquele momento queria guardar o silêncio penetrando na cabeça cheia de contas. Fechava os olhos tentando cochilar. O sono não vinha. A preguiça não deixaria levantar sequer uma perna até a esquina para comprar outro maço de cigarros baratos. Sua vida pendeu sobre o estofado azul gasto pela gata da ex mulher que puxava todos os fios ao acordar; e ela acordava várias vezes ao dia..sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Que ironia a morte estar por todos os lados. Estava mais viva do que ela, sendo uma constante ameaça.
Morriam sempre mais de três na sua sala de jantar, até que sua mãe deixou de ver jornal. Morria alguém atropelado, algum motoqueiro mais descuidado que deixou o capacete no braço e rolou por debaixo de um ônibus lotado. Morreu um mendigo queimado, ninguém lhe disso o porquê. Morreu também dois cachorros, um hamster e três gatos; esses óbitos foram os piores, nunca havia se curado.
Numa síncope materna, sua mãe deixou de deixar. Para Ana a morte parecia carregar sua foice pelo quarteirão inteiro quando tinha tiroteio. Ela sabia que não ia poder sair de casa. Ficava esperando a hora de fisgar um duplo assassinato. Achava que ninguém morria se não fosse um tiro bem dado, até que seu tio morreu enquanto passeava na frente do Copacabana Palace e uma marquise lhe acertou a cabeça em cheio. Sua irmã se esvaziou em choro. Ana ficou ali pasmada, achando estranho alguém chorar pelo o que não fosse um cachorro, um hamster que havia se ganhado de aniversário.
Tinha raiva da morte, da possibilidade de matá-la, ao mesmo tempo em que gostava e algumas vezes, inclusive, queria que alguém morresse.
domingo, 15 de junho de 2008
Ouço um piano imaginário quando toco com os pés a calçada. Volto da praia descalça, vejo as teclas no calçadão preto e branco de Ipanema. Ando com ritmo até o piso só ter uma cor.
As folhas me acompanham virando para o lado que eu vou. A brisa me expulsa até eu virar a esquina e o vento não ter força para me levar.
Os turistas coloridos confundem o inverno com o verão, trazendo hibiscos em suas camisas de botão. Também não combino as roupas desta estação, desfilando de biquíni e canga nas horas vagas.
Passo mais tempo aqui; conheço as ruas pelo nome, mas ainda faço bafo na vitrine inventando moda de querer levar cada estampa para casa como lembrança.
Olhou-me dentro dos olhos. Estava vazio de consciência, vazio de som.
Por um segundo hesitei não ir. Aquele silêncio era despedida; de mim ou dele mesmo. Teria ele mudado? Não me levava nos olhos.
Mantive o ar sereno, estalei um beijo oco na boca, torcendo para não ser a última vez.
Saí do carro com a sensação que o havia perdido. Refleti sobre meus erros, pequenos demais para deixá-lo daquele jeito. Dei a volta sem entrar
Eu havia ido embora muito antes, e agora me fazia de vítima. Recompus a idéia, trocava de papel com ele para saber se eu também o encarava com um vago olhar e descobri que era o reflexo do que eu estava sendo. Fomos embora juntos.
sábado, 14 de junho de 2008
Acordou entre a caçamba de lixo e o meio fio. Estava largado, anestesiado pelo etílico que não o deixava acordar nem mesmo com o sol rachando as pálpebras.
Podia ouvir o roncar do estômago. Parecia um cretino, lerdo. Acordava com o barulho da fumaça entrando pelas narinas. Tossia como um tuberculoso.
Mimetizava com o asfalto, sujo como a calçada. As calças eram feitas de buracos de diversos tamanhos, em qualquer outro corpo faria sucesso, mas não havia pernas suficientes para preencher o vão do tecido gasto.
Uniram os países em pedaços, mas nenhum se reconhece na nova forma de escrever a história.
Fragmentaram as diferenças. È bom ter origem, é dela que tudo se modifica. Imagine hoje falar latim, contar piada com palavras gigantes. Não faz sentido fazer livro se ninguém vai ler.
O Aurélio vai ser extinto? As crianças realfabetizadas? Tempos verbais simplificados?
Inteligência burra! Cortar palavras em país de neologismo. Cortaram árvores à toa. Dicionário novo enfeita estante.