quinta-feira, 9 de junho de 2016

Junho. Olimpíadas no Rio. Manchete internacional.
Cubro o rosto de vergonha. Ponho um lenço para me afrancesar. Eu não tenho culpa, nem o que me desculpar.
Algumas modalidades foram adaptadas. Não por mim, que fique claro. Lá foram elas: salto em buraco tomaram lugar do salto em distância, maratona contra arrastão, nado em esgoto, ciclismo na ponte levadiça, pelada dos sete anões.
Eu poderia jurar de pé junto que a Al Qaeda recrutou todos os Aedes aegyptis  da face da Terra, mas eles nem precisaram fazer o esforço. Daqui a pouco por si só a zika domina a Europa.
Antes que todos saiam ictéricos na Lagoa, eu fujo. Já arrumei meu passaporte para as Maldivas. Caetano diz para eu ficar odara, mas não estou muito confortável com essa situação.
Rodei a cidade inteira para me esconder antes da viagem. Tropecei num buraco na pista e ironicamente chamei toda a atenção. Pedalei umas três vezes antes de me espatifar na Santa Clara. Acudiram-me todos os transeuntes. Chorei por medo de sabotarem meu plano.
Não demorou muito para uma senhora cair na mesma cilada e desviar para ela todos os olhares que pousavam em mim. Tomei coragem. Respirei fundo e tomei a reta da praia. Me esgueirei para pegar a tinta do homem de lata performista que estava na orla. Corri o mais rápido que pude. Entrando numa rua sem saída, pintei-me de cobre. Até meus cabelos levaram uma demão.
Esperei escurecer e no meio das prostitutas e travestis, eu já não chamava atenção.

Decidi ficar! Sentei-me com Drummond, engessando uma pose para os próximos dias e até agora estou esperando junho acabar.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Quarta feira. A imprensa conta os dias para o resultado dos votos.
Impeachment. Pode? Não pode? Golpe? Não golpe?
A dúvida reina. De um lado estrelas comem mortadela, do outro coxinhas. Uma miscelânea gastronômica zero estrelas no Michelan.
Um voto é agora como uma pena de morte. Um duelo se fez em silencio. A arquitetura do planalto foi planejada toda em teto de vidro, cuja as pedras são ditas.
Se eu levantar a voz, posso não acordar amanhã. Se eu ficar quieta pode ser minha candidatura de inocência. Eleição após eleição foi um jogo em silêncio. Sorriso no palanque, dinheiro escondido na cueca. As feministas quiseram protestar. O FEMEN veio com tudo. Não demorou muito e lá veio dinheiro na calcinha.
Uma distração, já estão na minha janela. Devia ter pensado nisso antes. Os desempregados estão com tempo livre, e agora são muitos. Não posso virar a próxima capa.  As olheiras não enganam, denunciam o diazepan barato que não fez efeito. Escondo meus dentes na boca.
Faltei as aulas. Confesso comprei meu diploma. Fidel era meu amigo, quebrou meu galho. Pronto falei. Me esmerei nos discursos, mas dizem por aí que pareço uma transloucada. Os que não ouviam agora escutam.
Quando anunciaram o Lava-Jato achei que era uma utilidade pública para lavar os carros executivos. Ledo enganam. Agora perco o sono e grito para as paredes me darem razão.
Estou triste. Não posso mais sair do país. Me convidaram para uma festa hi society, mas a dança das cadeiras ficou séria e agora eu não posso correr o risco de temer. Todo mundo quer puxar minha cadeira e eu preciso fingir que não sei porquê.


Um complô se formou por debaixo dos processos. Ataram minhas mãos. Digo isso, logo afirmam que não posso. Nomeei meu cachorro de Cerveró, disseram que é ilegal. Desapropriaram meus superpoderes presidenciais, nem ministro eu escolho. A criptonita deve estar mesmo estocada na Polícia Federal. 

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

De repente secaram as bicas. Primeiro as torneiras da cozinha, depois, o banho só se fazia de mar. A princípio ninguém se ateve a esse detalhe, todos contavam com a expectativa da água voltar no final do dia a encher as caixas d´água. Para imensa surpresa, a água não encheu os canos, nem mesmo a chuva inundou o céu.
O noticiário foi impedido de contar o trágico fato para controlar o desespero. A boca seca causava certo mal estar, entretanto, as reclamações eram pequenas em relação à grandeza do problema e isso censurava qualquer palavra por enquanto.
Os engenheiros puseram-se a pensar em alguma solução. Os químicos pensaram no dinheiro capaz de ser gerado com oxigênio e dois hidrogênios, mas um conselho de ética limitou a ganância contida nos jalecos.
Após todas as opções se esgotarem e até o mar diminuir de volume, uma ideia cresceu no vazio. Diante da amargura de uma vida seca, milhões choraram de tristeza. Cada gotinha preciosa que caía, evaporava ao tocar os lábios secos. Devido à extrema necessidade, as lágrimas passaram a valer muito. 
Lotaram salas de cinema com filmes de Titanic e horrores do holocausto. As lágrimas escorriam num recipiente onde eram coletadas. Crianças recebiam susto para abrirem o berreiro. Testaram as bombas de gás lacrimogênio, porém, certa substância tornava a lágrima imprópria e as autoridades viram que teriam que buscar outras alternativas ainda mais eficazes.
Passaram-se alguns meses, e a população fazia rodízio no apanhador de lágrimas. Aos poucos, cada lágrima lançada era mais escassa. O costume seca, como uma vacina que previne das mazelas. As matanças não surtiam mais efeito, os amores não emocionavam mais. Apáticos, um exército de olhos esgotados olhavam para o horizonte, onde quer que ele fosse, sem uma direção. A tristeza não causava mais efeito.
 Um homem ousou expor uma nova tentativa, fez o reverso de tudo já visto. Lançou mão do seu jeito abobalhado e se debruçou no primeiro menino que viu, fazendo uma graça. O efeito foi imediato. Riu, e rindo via-se brotar dos olhinhos pequenos duas gotas da mais salgada lágrima, ainda mais preciosa.
De tanto sofrerem, sem enxergar saída, ao se depararem com a risada que rompia com o sisudo silêncio de quem perde as esperanças, ocorreu o imprevisível. Como se alguém tivesse acabado de contar uma piada infalível, todos começaram a rir e os cachorros latiram em alguma concordância. As lágrimas voltaram a ser suficientes para hidratar os corpos já enrugados.
De fato, dias depois, os mais importantes perceberam que fazer rir era muito mais difícil que fazer chorar. Os melhores comediantes foram requisitados em auditórios para fazer chorar de rir, esses também sorriam, pois, haviam dado adeus ao desemprego que passaram por aqueles meses atrás.
De um dia para o outro, da mesma forma que alguém secara a água, derrubou um temporal sobre o chão, a encher as folhas murchas de cada plantinha, como se alguém houvesse simplesmente esquecido de molhá-las.

domingo, 28 de julho de 2013



Segurou os olhos com força. Não podia acompanha-lo, caso o fizesse ficaria claramente constrangida. Esse era o seu problema; uma vergonha sem pudores que não lhe abria exceções. Era só falar em público que as mãos pareciam derreter, frias como recém falecidos e os olhos afundavam em olheiras sem fundo.

Precisava de um tratamento violento, com aparições no palco, dedicações ao microfone. Era isso, ou o silêncio quando ele enfim se aproximasse. Não podia perder essa chance quando ela chegasse.

Cumpri minha palavra, gritei seu nome logo na entrada, para que soubessem quem era ela. Ela começou a nutrir certa intolerância, mas depois me agradeceria, quando curada desse mau comportamento.

Deixei cair o prato no refeitório para que todos os olhos se projetassem nela. E a fiz gostar pouco a pouco da plateia. Ficava cada vez menos vermelho o rosto, um rosa escuro, talvez. Visivelmente o tratamento começou a fazer efeito.
Não acompanhava mais o aspirante a médico. Passou a acompanhar o que lhe passasse a vista, moreno ou loiro.
Foi assim que a curei da timidez severa, com holofotes, gritaria e com eficácia garantida.


Não sabia por onde começar. Ela tirava adjetivos de onde ninguém havia visto.

Para o imenso nariz, destacava-lhe o olfato. Sentia e sabia todos os perfumes dela. Mesmo depois de uma cirurgia que prometia corrigir o desvio de septo era impossível  não notá-lo a priori.

Ela o ameaçava com a beleza fina dos longos cabelos loiros, com os olhos esverdeadamente azuis ou azuladamente verdes. Eu dizia o quanto assustavam no as investidas. Toda delicadeza lhe caia em tom de maldade, judiaria. 

Nem nos sonhos aquele homem pequeno do nariz grande poderia pensar nas tentativas dela de ser clara.Ela por sua vez, com os adventos da modernidade, perseguia todas as fotos, foi assim que conseguiu ver sua natureza mais antiga, antes dos procedimentos cirúrgicos.
Como levar adiante um relacionamento desproporcional no quesito beleza? Em todos os outros podia se equivaler, mas esse...nunca. 

Ele treinava mostrar seu troféu aos amigos. Ela desfiava elogios e o chamava tão carinhosamente de feio que até bonito ficava na descrição mais eufemista possível.
No dia, de encontro marcado, decidiram se enfiar no lugar mais escondido onde ninguém faria comparações ou medidas, mas quando todos deram falta de ambos, ficou claro o motivo.
Combinaram a separação, cada um para um lado a fim de disfarçar. Mas o resumo da história chegou ao fim e não sou mais eu dona dela.

terça-feira, 26 de março de 2013

Sobravam-lhe conselhos. Dos mais diversos possíveis. Dormia com eles a dar marteladas de madrugada. Infalivelmente acordava sem solução.

Arrumava o santo. Dava-lhe presentes até. Colocava uma santa por perto para que pudesse se distrair imaginando o que existe debaixo de todo o manto.

Santo Antônio não cooperava. Aliás, fazia hora extra. Um exemplar funcionário divino que não concede apenas uma graça, mas muitas desgraças pelo caminho.

Já havia trocado de chip três vezes ao menos para afugentar os pretendentes que deixavam o celular inquieto. É que seus ex- amores anunciavam seus dotes como em uma leilão de vacas, dando medidas e adjetivos que nem Camões poderia supor. Nem era tão bonita.

Relatavam em superlativo os risotos, as tortas de maçã. Descreviam cremes a derramar da taça. Nunca contaram a verdade sobre o arroz queimado ou a regra do assopro dos cinco segundos. Dessa maneira, faziam propagandas enganosas para encorajar desesperados que almejam casar e procriar.
Ontem, apelara para o horóscopo. Não poderia ser verdade! Sem cortar palavra dizia que o amor bateria à porta. Isso era óbvio! O amor já havia batido na porta tantas outras ocasiões. O equívoco estava em querer tudo ao contrário.

Almejava a solidão. O choro guloso que engole um pote de sorvete pela rejeição. Em contrapartida, em incurável procura havia lhe tirado a fome. Emagrecia a olhos vistos, cabendo nos menores vestidos para o deliciar masculino.

Por ser extremamente obsessivo, descartava a hipótese de se vestir desleixadamente com medo de atrair o outro time e por consequência aumentar o problema.

Queria ficar só. Solita. E andar anonimamente sem que um pretendente lhe lançasse uma cantada puída.

Depois de muito esforço, inevitavelmente foi de encontro ao matrimônio para fugir das perseguições. Não bastara isso, teve também três filhos. Após tanta humilhação prometeu nunca mais fazer o buço e ir de burca aos comícios do Femmen para calar os seios desnudos que provocavam o sexo oposto.
Exercendo sua defesa, os norte coreanos despistam sua periculosidade com palavras agudas que ninguém compreende.

As ameaças são tão insignificantes que um pedido de desculpas mal escrito pelo roubo de cartão de crédito recebeu mais destaque que o anúncio de uma possível guerra. A própria China, enorme aliada, pede parcimônia nos ataques. Uma guerra branda. Uma guerra morna.

Sem ter notícias precisas, a mídia usa uma arma inovadora: ignorar. Sem dar relevância, também não cria alarde. O grito agudo some sem eco, desacreditado.

Haveria algo por detrás daqueles planos malignos? Uma conspiração talvez? Suicídio?
Teriam os coreanos e chineses pedido auxílio ao inimigo? Com população tão crescente e comida escassa precisavam de uma solução rápida e eficiente. Num esbravejar autêntico escondia um plano cênico e ensaiado. 

Uma bomba resolveria tudo. Ao fazer cócegas em território americano e piadas em território japonês, alcançariam a glória de fazer sobrar algum metro quadrado. Uma traquinagem perfeita com efeitos especiais para esquentar as capas de revista.

O desfecho? Eu não sei. Ainda estou lendo sobre a carta do cartão de crédito e pasme o ladrão pediu disculpas. Isso mesmo, disculpas com “i”. Nunca serão aceitas.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Nas segundas recorro a internas narrativas. Porque viera tão rispidamente? Onde enfiara-se o domingo onde não coube a praia nem tão pouco o açaí?

Cada vez os ponteiros se agitam com mais rapidez, tanta, que tenho que trocar as pilhas com tamanha frequência que logo chegará o horário de verão.

Quando mais nova entediavam-me as horas. Era obrigada a inventar distrações, ler livros, e inclusive fazer sentar à mesa todos os integrantes da família. Hábitos arcaicos perante a modernidade.

O teclado me abduziu inesperadamente ontem a noite. Enquanto digitava mensagens, o Fantástico já havia esgotado e automaticamente o despertador já tinha simplesmente despertado. Nem sinal de sono dormido, apenas a bateria descarregada.
Avançava com o carrinho em uma corrida que cortava os corredores do mercado. Esbarrava cinicamente no que se movia para se desculpar com candura. Os cabelos brancos permitiam-lhe tal atrevimento, justificando a ousadia.

Tudo era pensado na razão social. A solidão não cabia na própria sala ou na novela. O contato humano era necessário mesmo que premeditato como um crime. Roubar um toque era um vício sem preconceitos. Quando uma criança alinhava-se em sua direção os olhos demonstravam espasmos e a mão escorregava o suficiente para alcançar os cabelos.

A fila somente crescia, chegando até o setor de laticínios. Logo algum tranco roubava uma franca reclamação.

Enquanto os rápidos caixas demoravam, iniciava-se uma conversa doentia. Dores, artrites, lordoses, gases e lactobacilos vivos davam o tom escatologicamente engraçado à conversa.

O carrinho quase vazio anunciava o pretexto para voltar no outro dia para arrancar qualquer palavra que abafasse seu silêncio corriqueiro. A mesma conversa à espera dos caixas rápidos sempre demorados.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

A calma acabou por instante. A boca do fogão desperta tamanho calor agora que incomoda as mãos.

Penso nas panelas e potes. Penso mais que em minha própria vida. Será que um dia pensei.

Aquelas luvas não protegem mais. Tabuleiros no chão.Era fácil queimar as mãos no momento, mas nem o plano de saúde cobriria o espaço, nem mesmo a folga.

Garfos e colheres estampam a vida. Num reluzir de reflexões das decisões que o tempo tomara. Inconsciente da culpa ela diz que foi por escolha, mas digo ser por dúvida. Minha e só minha.

Nem mesmo os aumentos fariam-na mudar de ideia. Seja lá que ideia fosse. Torna a queimar a mão e já pensa em outra coisa.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vi subindo pelas águas um barco que não era grande. A lotação charmosa perdia a graça em termos práticos; alçar as malas sobre o flutuante causou alguma estranheza.
Hotéis antigos e cidade feita de turistas. Fiquei sem saber como eram os habitantes sem as máscaras. Não houve baile nem festa, quem deu as boas vindas no hotelzinho antigo foi uma escada que não tinha fim. Não foi por falta de sorte, tudo era antigo. Talvez neste ponto o lugar ganhava graça.

Veneza, linda como lhe diziam ficou apenas no filme. De tanta neblina era um mistério a outra margem na sutileza embaçada das cores rasuradas pela umidade. A graça estava em atravessar a ponte, unir dois lados do caminho.

O palácio enriquecido emaranhava a vista. A informação subia pelas escadas, cada porta tornava-se um labirinto onde se podia escolher apenas uma opção, seguir todo o trajeto deslumbrando-se pela história.

O lugar parava ali, na praça. Os pombos adestrados subindo pelos braços prendiam a atenção por instantes. Dava para ver a cidade desembocando no centro. Cada ruazinha, das mais estreitas imagináveis, ia parar ali para ver todos os leões esculpidos em bronze, lembrando a glória de um tempo que passou que agora é admirada.

A cidade se afoga aos nossos olhos, sendo engolida pelos degraus que denunciam o fim trágico. Nem mesmo a fama poderá salvá-la das algas que lhe puxam...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Não sei a hora certa do aplauso. Toda vez a mesma questão. Uno as mãos na maioria das vezes, por educação.
Quando me deparo com uma tentativa frustrada de arte chego a me arrepender, mas não sei onde por as mãos. Então lá estou eu fazendo barulho.
Sinto-me ofendendo a própria crítica. Depois de certo tempo admiro a minha coragem. Constranger a todos. Mesmo sabendo o que é ruim, camuflo a opinião. Um teste para a reação alheia.
Sigo aplaudindo cada erro. Pois na vergonha ainda há ensinamento.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Toquei com os dedos ainda dentro da luva a gota branca que corria no ar. Desnudei a mão direita para não congelar de vez, sentindo quase a mesma temperatura. Era como se eu já a conhecesse em sua profunda brancura.
Alguém deveria fazer a brincadeira estúpida, arremessando a bola de gelo contra as costas de alguém mais distraído; pondo-se a correr pelo medo da vingança. Vê-lo em disparada fez subir um calor obrigando-me a tirar o cachecol que já tomava a forma do pescoço.
De tanto ir a Nova York de filme supunha-me íntima, achando tudo muito maior. Na proporção da minha sala, cabia tudo! A Quinta Avenida era uma enorme Visconde de Pirajá salpicada de branco.
Enfreitei a fobia do metrô no terceiro dia, o caos falado em diversas linhas. Havia momentos em que o inglês falhava e eu pedia com a expressão do rosto para que repetissem.
Eu tinha a impressão que o frio não caberia nos dentes, tremendo. Escorreguei algumas vezes na calçada quando o sol aparecia derretendo o gelo.
Conheci tantos museus numa tarde que meus pés poderiam chegar antes em casa, suplicando por descanso, enquanto os olhos se enchiam de cores. Confundia os pintores numa linda ignorância, prestando atenção apenas na beleza de cada detalhe.
Nas roupas esquisitas que desfilavam pelas lojas, confesso que senti vergonha.
Vi garçons cantando e dançando, equilibrando bandejas. Ainda fazíamos planos para o dia seguinte. Quando traziam o pedido eu levava um susto com o tamanho das porções, lembrando inconscientemente do filme do Michael Moore.
Encontrava sempre uma boa surpresa; a multidão que não cansava de andar; imensas lojas de brinquedos com tudo o que eu não herdara dos meus irmãos quando eu era menina.
Antes de dormir desejava-lhe boa noite não querendo dormir. Torcia para o dia de repete ter mais horas. Cada dia era uma despedida. Quis subir no prédio mais alto para garantir ver tudo o que o tempo poderia não permitir. Quando cheguei lá vi a cidade acender em luzes coloridas. Era mesmo maior que meus olhos poderiam ter previsto.
Comi cada pedaço de torta querendo roubar a receita, cheirei cada perfume querendo levar na pele, vesti cada roupa imaginando em meu cabide, levei você comigo com um sorriso nos olhos.
Antes que eu voltasse para o avião pousado em minha cama recebia notícias sempre, e era como se eu estivesse mesmo lá.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Tinha mãos de mímico, falando mais que a própria boca em inquietação constante.

Os gestos argumentavam. Cada dedo tinha alguma razão. Apontava o indicador como se fosse uma arma, mas o gerente nada pode fazer por ele.

O restaurante cheio o interrogava com olhos que não cabiam nas órbitas. Saiu de lá chutando os canteiros, amontoando as notas do cartão de crédito no bolso, deixando cair metade dos outros comprovantes.

O caminho de casa pareceu mais longo aquela tarde. Todos os sinais de trânsito fechavam contra seu favor. Alguma força estranha desafiava sua paciência que já era pouca.

Logo que o nervosismo cessou, tratou de esticar as pernas sobre a poltrona, para o sangue voltar ao lugar certo. Ponderou as tragadas de cigarro para que nenhum vizinho viesse até a porta reclamando do cheiro forte que o cigarro produzia, assim como houve antes no salão repleto de cadeiras ocupadas no restaurante.

Jurou que nunca voltaria. Logo repensou sua promessa pelo salmão que o viciara. Teve vontade de processar o estabelecimento por incentivar o vício, com letras escritas em giz amarelo anunciando “Temos salmão com alcaparras”. Talvez ganhasse muito dinheiro fazendo isso. Mal possuía dinheiro para comer lá, que dirá pagar um advogado. Teve que pendurar esta idéia também.

De tantas idéias aposentadas havia horas em que preferiria ser uma ostra, filtrando uma água bem imunda. Torceu pela outra encarnação ser mais generosa. Pediu ainda forças para resistir ao salmão. Tudo para não olhar para aquele gerente entupido de deselegância.

Por aquele momento queria guardar o silêncio penetrando na cabeça cheia de contas. Fechava os olhos tentando cochilar. O sono não vinha. A preguiça não deixaria levantar sequer uma perna até a esquina para comprar outro maço de cigarros baratos. Sua vida pendeu sobre o estofado azul gasto pela gata da ex mulher que puxava todos os fios ao acordar; e ela acordava várias vezes ao dia..

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Que ironia a morte estar por todos os lados. Estava mais viva do que ela, sendo uma constante ameaça.

Morriam sempre mais de três na sua sala de jantar, até que sua mãe deixou de ver jornal. Morria alguém atropelado, algum motoqueiro mais descuidado que deixou o capacete no braço e rolou por debaixo de um ônibus lotado. Morreu um mendigo queimado, ninguém lhe disso o porquê. Morreu também dois cachorros, um hamster e três gatos; esses óbitos foram os piores, nunca havia se curado.

Numa síncope materna, sua mãe deixou de deixar. Para Ana a morte parecia carregar sua foice pelo quarteirão inteiro quando tinha tiroteio. Ela sabia que não ia poder sair de casa. Ficava esperando a hora de fisgar um duplo assassinato. Achava que ninguém morria se não fosse um tiro bem dado, até que seu tio morreu enquanto passeava na frente do Copacabana Palace e uma marquise lhe acertou a cabeça em cheio. Sua irmã se esvaziou em choro. Ana ficou ali pasmada, achando estranho alguém chorar pelo o que não fosse um cachorro, um hamster que havia se ganhado de aniversário.

Tinha raiva da morte, da possibilidade de matá-la, ao mesmo tempo em que gostava e algumas vezes, inclusive, queria que alguém morresse.

domingo, 15 de junho de 2008

Ouço um piano imaginário quando toco com os pés a calçada. Volto da praia descalça, vejo as teclas no calçadão preto e branco de Ipanema. Ando com ritmo até o piso só ter uma cor.
As folhas me acompanham virando para o lado que eu vou. A brisa me expulsa até eu virar a esquina e o vento não ter força para me levar.
Os turistas coloridos confundem o inverno com o verão, trazendo hibiscos em suas camisas de botão. Também não combino as roupas desta estação, desfilando de biquíni e canga nas horas impróprias enquanto alguns usam ternos.
Passo mais tempo aqui; conheço as ruas pelo nome, mas ainda faço bafo na vitrine inventando moda de querer levar cada estampa para casa como lembrança.

Olhou-me dentro dos olhos. Estava vazio de consciência, vazio de som.

Por um segundo hesitei não ir. Aquele silêncio era despedida; de mim ou dele mesmo. Teria ele mudado? Não me levava nos olhos.

Mantive o ar sereno, estalei um beijo oco na boca, torcendo para não ser a última vez.

Saí do carro com a sensação que o havia perdido. Refleti sobre meus erros, pequenos demais para deixá-lo daquele jeito. Dei a volta sem entrar em casa. Num súbito momento tentei encontrar a felicidade dentro dos últimos dias. Já não era um sentimento bom. Pensei em ficar sozinha antes que ele mudasse, mas quis enganar a vontade pensando em orgasmos verticais, mãos dadas e telefone tocando a música que eu escolhi para saber que era a voz dele que eu escutaria.

Eu havia ido embora muito antes, e agora me fazia de vítima. Recompus a idéia, trocava de papel com ele para saber se eu também o encarava com um vago olhar e descobri que era o reflexo do que eu estava sendo. Fomos embora juntos.

sábado, 14 de junho de 2008

Acordou entre a caçamba de lixo e o meio fio. Estava largado, anestesiado pelo etílico que não o deixava acordar nem mesmo com o sol rachando as pálpebras.

Podia ouvir o roncar do estômago. Parecia um cretino, lerdo. Acordava com o barulho da fumaça entrando pelas narinas. Tossia como um tuberculoso.

Mimetizava com o asfalto, sujo como a calçada. As calças eram feitas de buracos de diversos tamanhos, em qualquer outro corpo faria sucesso, mas não havia pernas suficientes para preencher o vão do tecido gasto.

Roubaram os acentos do meu dicionário! Levaram a fonética junto com a regionalidade.

Uniram os países em pedaços, mas nenhum se reconhece na nova forma de escrever a história.

Fragmentaram as diferenças. È bom ter origem, é dela que tudo se modifica. Imagine hoje falar latim, contar piada com palavras gigantes. Não faz sentido fazer livro se ninguém vai ler.

O Aurélio vai ser extinto? As crianças realfabetizadas? Tempos verbais simplificados?
Inteligência burra! Cortar palavras em país de neologismo. Cortaram árvores à toa. Dicionário novo enfeita estante.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Eu quis descrever a saudade e seus reflexos, até alguns sintomas. Altos e baixos, sobre o egoísmo de querer você para mim, com a sensatez de que não seria certo.

Eu disse adeus como um até breve. A despedida pareceu corriqueira e tão logo seria finita, com um previsível sorriso amistoso anunciando um novo dia. Dessa vez a espera é longa e merecida.

O valor das coisas varia com a distância. A lei da oferta e da procura parece encaixar-se perfeitamente neste perfil. É mesmo caro fazer interurbano, mas somente a voz parece não preencher o vazio, muito menos supre o saudosismo.

As tardes são longas como nunca foram. É adequado ressaltar, que não perco o tempo, somente o sono com a ausência. Há longos anos pela frente para dividir a cama, entrelaçar os sonhos ou realizá-los.

Eu estava psicologicamente preparada para algumas semanas. Estava completamente enganada em poucos dias.

Facilmente um sentimento nos faz reféns. Uma chantagem musical, ou uma tortura telefônica seria o bastante para cair em pranto. Eu sempre achei o choro perda de tempo; preferi somar as lembranças para sentir de perto as sensações. Elas ainda são frescas.

Antes de abrir os olhos e ir logo saltando da cama, desejo com tanta vontade sua felicidade plena, que me abasteço de tão nobres sentimentos que acabam por me beneficiar também. Aquelas lindas flores eu dedico a você. O cheiro de dama da noite remete a uma nostalgia passageira. Os vestidos que usei para estar à sua altura parecem carregar seu cheiro para onde quer que eu os leve. São doses homeopáticas da sua companhia.

Como em uma prece, torço para que as horas sejam relativas, tendo a missão de findar a saudade do ninho e ao mesmo tempo cabendo o encargo de correr tão rápido para não transformar a saudade que sinto em melancolia.