domingo, 9 de março de 2008

Dava para se notar que ele era solteiro. Bastava olhar para a quantidade de biscoitos no carro de compras para perceber sua total imaturidade.

Faço deduções prosaicas que geralmente são coerentes. Faltava mesmo aliança em suas mãos. Teria sido mais fácil olhar para um dos membros ao em vez de notar seus objetos de consumo.

O que pensariam caso vissem meu adoçante? Seria eu anorexica ou diabética? Talvez as duas embalagens de café forte explicassem minhas olheiras.

Comecei a ficar paranóica com as compras. Quando eu comprava ovos e farinha logo me questionavam sobre o sabor do próximo bolo, quando eram velas, perguntavam qual era a promessa.

Minhas notas fiscais falavam muito sobre mim. Caso alguém a encontrasse seria pior do que encontrar um diário, saberiam até quanto eu costumo gastar, até das marcas genéricas para economizar.

Passávamos nossas compras coincidentemente no mesmo caixa. Tomava o cuidado de deixar sempre alguém a minha frente. Faltavam sempre verduras. Tinha vontade de palpitar, sugerindo pelo menos o ferro de uma beterraba.

Um dia minha ansiedade não pôs ninguém à frente. Eu e ele deitávamos mercadorias na esteira do caixa, com pressa. Nossa afobação trocou as notas, tivemos que mudar de mercado.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Quase caía. Debruçada na mureta da varanda, assistia o movimento da rua, seus carros e pedestres. Fazia muito esforço para ouvir o que se dizia quando passavam com gestos mais efetivos. Um gesticular diferente fazia despencar um dos brincos, tamanha a ousadia dos ouvidos em se esticar mais que a própria cabeça.

Enfeitada em seu costume de domingo, deixou cair seu brinco mais precioso. Correu atropelando os degraus, desrespeitando os corrimões.

O portão não se abria apesar de apertos frenéticos. De repente um som abria o clarão da tarde, além das frestas da grade. Já não adiantava correr, seu lápis-lazúli não tinha mais dono.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Era como se aquela risada invadisse meus ouvidos e fosse me consumindo; amolecendo-me. Aquele tom ritmado fazia meu coração mais humano, adormecia meus temores, minha raiva.

Eu sentia medo de sentir algo diferente, ser assim mais gente. Nunca acreditei em mudanças bruscas, mas aquela criança tocava minha alma fundo demais.

Suas mãos eram rápidas. Meus olhos só viam os rabiscos depois, já prontos, sem saber como um traço colou no outro.

Sua carência fazia com que eu dançasse ballet sem musica alguma. Forjávamos uma platéia, de olhos para a parede, com pontas fincadas no chão e um sorriso bobo na face. Agradecíamos, nós duas, como cúmplices de uma brincadeira que depois poderíamos repetir.

Tirava perguntas de não sei onde. Conhecia minha família de tanto questionar como eram. Pedia com os olhos vidrados para levar meu irmão em uma próxima visita, ao mesmo tempo fazia questão de dizer como meu novo corte de cabelo me caíra bem. Dizia tudo como se os seis anos dela tivessem sido privados de som e a língua não coubesse dentro da boca.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Enquanto todos rezavam junto a cama de mãos dadas e olhos cerrados, eu espiava com um olho só as possíveis reações de um corpo estático. Fechava os olhos quando percebia que alguém mais os abria, fazendo uma cara imaculada e santa.

Lagrimas escorriam pelos rostos. Sentia-me estranha por não ser sensível a validade da vida.

Nos momentos sozinhos, acompanhava-me a lembrança e esta ainda era viva. Bancos no fogão, histórias entre seis bocas mudas.

Lembro com graça de seis pés balançando sem conseguir tocar o chão, esperando a refeição quente. Hoje sempre almoço desacompanhada, hoje fica difícil encaixar minhas pernas de baixo da mesa.

Existem fatos que o tempo não rouba, mesmo assim acordo cedo todos os dias para dizer que eu fui a primeira a ver o sol brilhar ou mesmo a primeira sentir os primeiros pingos de chuva, pondo os dedos para fora da janela. Não me incomodo com as olheiras que este vício me causa, eu gosto de saber que estou viva, com dez ou oitenta anos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ouço musica pela manhã. Instrumental, pois meu pensamento tem letras em excesso. Escuto Ravel como se fosse meu próprio coração batendo, acrescentando uma nota cada vez mais forte.

Tomo um banho para espantar o calor. Logo o sinto com mais intensidade. Devo me acostumar com a fervura do verão.

Não há praia em minha atual rotina. Desço e subo escadas com freqüência. A pressão baixa, escondo-me no estoque. Desço as escadas fingindo estar bem.

Aguardo a hora de ir desde que cheguei. Ameaço minha saída todos os dias, para que sintam muita falta.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Chego ao quarto frio no meio da tarde, deixando a bolsa sobre o sofá. Cumprimento meu pai com notável surpresa. Enfim trocamos os turnos.

Ouço a máquina por tanto tempo que sou capaz de ignorá-la

A porta se abre inúmeras vezes. Levo sempre um susto ao ouvi-la bater, como se estivesse fazendo algo errado, e aquilo me imobilizasse.

Vigio a respiração com cautela, sua palidez me desanima. Descubro-me em horas pacatas, sem um relógio por perto. Perco-me em sentimentos turbulentos. A identidade se esvaiu, possui apenas um nome pelo qual atende, abrindo os olhos.

Suas feições doloridas ferem meu espírito. Lembro das vezes em que fugi dos domingos que deveriam ser em família, em que poderia estar sentada ouvindo histórias na beira do fogão.

É inútil remediar memórias involuntárias, são como espasmos de consciência. Olho pelo vidro em busca de aceno de um vizinho, só para não me sentir só.

Migalhas de biscoito caem sobre o estofado. O tédio alimenta a idéia de que o estômago está vazio. Aparece uma formiga que perambula para distrair meus olhos, depois some nas dobras da cortina.

Começa a ficar difícil observar que a noite não avança. Esqueço do horário de verão.

Leio as palavras que escrevi, impregnadas de saudade, ou mesmo de reflexão.

Toda vez que me levanto, ajeito o dedinho torto do pé, em homenagem a sua vaidade.

Há vezes em que seus olhos se abrem, parados, sem reação. O que será que existe na parede branca, que tira a vontade de olhar em outra direção?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Vi o amor de perto. O tédio foi remediado. Havia mesmo um sentimento, coisa que nunca vi antes. Parecia novela das seis, com direito a gracejos gratuitos.

Viajei sentada sobre a pedra, assistindo o vento brincar com seu cabelo para eu ajeitar depois. A fome nos fez levantar.

Como só havia churrasco pela vizinhança tive que um arranjar algo melhor ao meu paladar. Um sorvete era um motivo para dar sabor ao frio da madrugada.

Levou-me até a pousada rosa. Beijamos no portão. Saiu descalço pela rua de terra, sem saber que eu já ia embora.

Amor de carnaval dura o tempo para lembrar, esperando o próximo chegar para acabar na quarta de cinzas.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Paredes pedem para não ficarem brancas. Mãos enfeitam o tom desbotado; manchando em tamanhos diferentes.

Vejo o tempo passar contando os dedos que quase tocam o teto, penso como alguém subiu ali.

Olho o relógio com ponteiros assimétricos, informando a relatividade das horas. Pego um jornal amassado e tento lê-lo como um homem, sem amassar mais. Meus instintos femininos destroem as dobraduras, logo desisto de dobrar as folhas ao meio, embaralhando os esportes com o jornal da tv. Sono de três horas somadas agitam os foliões que vão para a praia em dia de chuva, para guardar areia no bolso como lembrança além das fotos.

Silêncio na apuração de escola de samba, em contraste com o funk intruso que engole a paz costeira. Dançarinas de rua tremem os postes apoiando-se neles, dançando pela milésima vez o som que não se equaliza.

Competição auditiva. Sinto-me na feira nordestina, com um karaokê em cada barraca típica, tocando Calypso e Legião em menos de um metro quadrado de distância.

Sinto vergonha alheia, constrangida com o efeito do álcool. Brindo (sóbria) um samba raro, descalça, tendo cuidado com os prováveis cacos de vidro, assistindo piranhas travestidas com perucas florescentes, enchimento e saia. Um bom pretexto para sentir como é sentir frio entre as pernas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Conhecidos pela rua, esbarrando guarda-chuvas. Chovia como se fosse primavera. Um bafo quente induzia a vontade de chegar em casa e tirar a roupa.

Os sinais fechados enrolavam as horas. O desejo de pousar as pernas em um lugar mais alto era tão grande que eu poderia deitar no asfalto e estendê-las no meio fio para ter a regalia do sangue subindo para a cabeça.

Horas em pé faz minha pressão despencar; nem sal grosso me levanta. Sonho com a volta para casa.

Sempre passo em frente ao bar cheio, com maquiagem de trabalho; pensam que vou sentar por ali. Devem se desapontar ao ver que estou indo embora com pressa. Na verdade, tento não olhar para as cervejas na mesa, para não me hipnotizarem.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Renovava a visão ao piscar os olhos. O sol brilhava mais a cada segundo. O calor escorria pelas costas, colando a camisa sobre a pele. Os sapatos quase colavam no asfalto, se fundindo.

Nuvens indecisas deixavam apenas uma faixa de luz aparente. Alguns paravam para fazer um comentário cego, dizendo ser um sinal celestial. A chuva não tardou a cair, eu disse entre dente que os pingos então seriam uma vingança divina, tendo em vista o sábado por chegar. Logo alguém parou para me dar sermão.

Estrago sonhos, rachando-os ao meio, tamanha a severidade do tom da minha voz. Objetivamente não traduzo crença saindo da minha boca. De repente senhoras me abordam, dizendo ainda existir tempo para adocicar minha língua. Quem sabe daqui a alguns anos eu não esteja pregando a palavra bíblica, calando a peste herege. Duvido que este dia chegue.

Religião nunca me exaltou. Não paro para pensar em uma explicação sublime sobre a origem. Não sei falar sobre o começo, mas reconheço tudo que virará adubo no final.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Fiquei feliz por você ter vindo. Só lhe via pela janela, passeando com seu labrador cor de creme. Você parecia pensar alto enquanto chutava as pedras portuguesas soltas na calçada.

Tinha dias em que eu tinha vontade de pular lá da janela para você me acudir com a mesma delicadeza com que dava bom dia aos senhores que dividiam a rua contigo. Minha tolice romântica eu escondia atrás da porta do apartamento.

Uma vez eu joguei um lírio, na esperança de você entender que era eu quem estava lá em cima. Combinei a cor das pétalas com a cor da sua blusa. Ela foi caindo, rodando leve como um vestido em dança. Tocou seu rosto e quase entrou pelo bolso. Foi um jeito sutil de explicar que existia vida atrás das paredes do muro, por trás da cortina translúcida.

Notou o contorno do corpo no tecido branco. Deve ter achado graça em ver as bromélias com a ponta das folhas comidas. Deve ter se perguntado: - De onde surgiu o lírio?

Um punhado de outras flores ainda adornava minhas mãos. Debrucei-me no parapeito, acenando e pedindo desculpas. Pedi que subisse para tomar um café, dizendo que se não houvesse tempo, mancharia a blusa rosada, pois havia tingido os lírios com anilina. Foi assim que colori a sala com a surpresa da sua visita.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Bush exibe uma espada oriental o contraste não me surpreende. A imagem é vendida em jornais. Em plena véspera de carnaval, parece conveniente mostrar um semblante caricato. Aquele sorriso me aterroriza; os olhos não se fecham, dando um tom de condenação a cada espécime diverso.

A política viaja o mundo. Acenos para platéias eufóricas, esperando um deslize no discurso. Após horas de pronunciamento de alguma forma existe um efeito de amnésia. Palavras ditas sem serventia. Mal me lembro da primeira saudação. Presto mais atenção ao murmurinho de início, me abasteço de esperança por o que quero ouvir.

Dentro de cada um perpetua uma vontade de estar no tablado, fazendo promessas por desejo, sem reconhecer o efeito que isso provoca. Tenho certeza que cada cidadão tem pelo menos um plano de cinco metas já feitas. Todos têm tendência à candidatura, por mais que negue.

Eu aprovaria aspirações mais internas. Seria a favor da pena de morte nos casos mais hediondos, para dar lugar aos outros crimes a serem cometidos. Teria lugar para todos os estupradores. Diria isso com um brilho nos olhos, enquanto os hipócritas estampariam a primeira capa com a minha alegria contrastante. Eu sofreria um impeachment antes mesmo de falar sobre a legalização do aborto.

Minha candidatura seria um fiasco, eu teria que fugir para Londres até que meu discurso criminoso fosse prescrevido, perdendo a validade. Eu traria suvenires passados pela alfândega, dizendo que minhas férias foram ótimas. Aguardaria a guarda nacional ser acionada pela tentativa de cumprimentar o novo presidente com um aperto de mãos, estendendo uma réplica do Big Ben.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O muro não acaba enquanto eu o observo. A única visão faz o trajeto ter quilômetros. Pura ansiedade. Trepadeiras no muro de concreto faz eu pensar o que grafitariam se não houvesse folhas ali.

Vozes rompem o silêncio. Celulares tocam e desnudam a personalidade em toques variados. Alguns discretos, apenas vibram.

Reflito sofre fatos banais. A espera me cansa, observo as janelas do carro. O fume do vidro exalta a silhueta, gestos em excesso. Na caminhonete a carga se agita, sacudindo e ameaçando cair. Acidente com sirene a caminho.

O trânsito pára, o muro não acaba. Sonho em pintá-lo de branco só para poder escrever para entreter a vista de quem passar, parando em cada incidente.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Perdi o juízo. Saio de casa após o almoço, alcanço um transporte coletivo e sigo para onde não há rumo. Peço para parar logo após o túnel. Encaro meus pés em uma calçada desconhecida, sigo as placas até encontrar algo familiar. Dou de cara com Copacabana, com suas areias repletas de guarda-sol, viro a esquina e sei onde andar.

Acho o portão familiar, assim como o número. A porta estava aberta. Subo as escadas e vejo o porteiro distraído. Tento manter um diálogo, mas aqueles olhos pareciam surpresos pela minha visita. Tive que lhe ensinar o que fazer, pedir que interfonasse. Em vez de ligar sentado na mesa, foi lá fora como se ele mesmo fosse entrar no prédio. Achei estranho, mas evitei perguntas.

Entrei no elevador torcendo para que ele não fizesse barulhos extravagantes. Às vezes prefiro escadas, no máximo rolo pelos degraus. Abre-se a porta, vejo olhos gigantes me encarando, um cabelo de quem acabou de acordar, dou um beijo e vou entrando, deixando a bolsa no sofá. Tiro as sandálias e piso no chão frio. Olho o cavalete exposto na saleta, investigo os desenhos por curiosidade.

Toco a pele quente, peço para que tomasse um banho, acabo eu me refrescando com um copo de água. Estendo-me na cama e reclamo da falta de imaginação masculina ao falar do meu vestido verde. Ele parece achar graça, talvez ele próprio tenha pensado o mesmo.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Pinto as paredes de verde, torcendo que isso acalme os ânimos. Dei para tentar de tudo um pouco, já que a racionalidade não estava dando conta.

O computador quebrou com um soco no monitor, descarregava energia nos objetos mais valiosos. Não pude trabalhar, acreditei ser falta de atenção.

Jogava roupas pela janela, eu pacientemente as recolhia e dizia que ele teria que ir embora. Ficava mudo.

Meus gatos miavam aflitos, subiam na pia e derrubavam panelas, como se esperassem alguma atitude minha. Rosnavam enquanto cochilavam, acordando com o rabo agitado.

Não sabia por onde começar. De tanto eu ficar em casa, ele foi se acalmando, parecia gostar de me ouvir cantar de frente para o fogão. Olhava pela sala o abrir e fechar da geladeira, quando eu me virava, ele se esquivava pelo flagra. Sofria de solidão, por não ter onde pousar o olhar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Perdi minha inocência. Dei-me conta desse processo a partir da frieza de meus atos. Calculo cada passo.

Projetando minhas reações percebo a medida certa da delicadeza. Mulheres devem ser doces e meigas, depois é fácil governar a direção.

Conversava com um amigo em um bar cheio. Tinha tanta fumaça no recinto que eu fumei passivamente a noite inteira. Eu lhe contava sobre a vida, sobre os planos que eu bolava. Eu desfiava as histórias e em seu desenvolvimento eu ia notando como eu fazia propositalmente meia dúzia de pessoas infelizes.

Descobri um monstro de batom e unhas pintadas. Eu conduzia cobaias para a beira da loucura, dizia que os amava e lhe jogava depois de um penhasco enorme. Os enlouquecia por dar o que eles queriam; uma gargalhada para piadas repetidas, um afago após um dia cheio, boa educação para as sogras.

Involuntariamente eu os confundo tirando tudo o que lhes havia dado. Talvez fosse um teste para ver se agüentariam meus acessos de loucura. Eu faço deles um brinquedo, gosto de vesti-los para despi-los, por puro orgulho e deletério. Faria o mesmo episódio se fossem mulheres?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Faço palavras cruzadas na recepção. Um homem alto me encara pelo espelho pendurado na parede, boceja e senta do outro lado da sala. O ar condicionado me espreme na cadeira acolchoada.

Ouço todos os nomes, menos o meu. Mulheres se equilibram em saltos pretos de sapatos fora de moda, usam laços gigantes no cabelo. Parecem estar paradas no tempo. Meu tempo parece parar. Uma eternidade de espera para meia hora de consulta.

Desde a hora em que cheguei, quis ir embora. Revistas me convidavam a tocá-las, folheei umas três. A música ambiente incitava meus pés a se mexerem por tédio, minhas mãos pousavam sobre o colo, e revezavam-se em segurar meu queixo.

Às vezes acho que médicos são muito carentes, gostam de pacientes aflitos, ávidos por diagnósticos. Esquecem que só queremos sair.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Um menino subia a ladeira equilibrando compras em ambas as mãos. Acenava com uma piscadela gentil em troca de um sorriso.

Fitei suas mãos, alguns calos, uma unha escura. Parecia anêmico pela inteira brancura.

Voltou de casa com uma sacola vazia, começou a catar latas pela rua. Deu-me uma ainda cheia. Recusei por não saber a procedência, ele insistiu. Eu fingi que engoli, logo estendi a oferenda, ele bebeu um pouco. Mexia freneticamente o corpo sem que houvesse sincronia.

Largou as latas e pôs-se a correr ladeira abaixo. Catei latas por ele, esperando que ele voltasse, Em vão, brinquei de tiro ao alvo a noite inteira com um pedaço de ladrilho, arremessando nas latas empilhadas

Acertei uma menina linda que acabou me fazendo companhia. Ganhou-me diversas vezes. Sabotei sua vitória, dei-lhe a lata pela metade e disse que era para ela beber. Pôs-se a correr, então fiquei sozinho, contando os fragmentos de ladrilho.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Empino-me na ponta dos dedos para enxergar além dos carros engarrafados. Os pedestres só possuem cabeças, troco as formas de seus corpos por um momento. Vejo o que não existe. Divirto-me com a criação, tudo fruto de uma mente inquieta, insatisfeita com a realidade.

Notava os olhos entrando pelo meu decote. Encobria uma parte, mostrando as unhas pintadas de vermelho para distraí-lo por um instante. Policiais me põem mais medo que bandido. Por um instante coloquei as mãos no quadril, deixando a vista livre. O que não fazemos por uma informação.

Difícil eleger minha reação ao ver suas mãos me puxando pelo braço. Era uma falsa blitz. Tudo parecia estranho, aquele homem robusto imitava os homens do filme. “Fanfarrão” ele dizia com vontade. Eu sentia tanta raiva pelo plágio que não percebia que ele estava me algemando no poste. Meu gesticular foi sendo amenizado pela força que tinha que fazer para mover os punhos. Minha vontade era de dizer que o José Padilha estava enganado ao inserir na boca do povo palavras vazias.

Gritava em bom português um socorro, depois ia alternando os idiomas. Ninguém se mexia, nem notava que a arma era de plástico.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Minhas manias estão escondidas em um caderno. Faço uma lista de coisas para não se fazer. Simplesmente manter grandes as unhas, evitar cachorros, desviar da faixa de pedestres, acenar para homens de terno.

Estando em companhia, estremeço-me para parecer normal. Falo em voz baixa minha palavra da sorte, depois digo que foi um soluço.

Passo despercebido entre a multidão, fumando com a mão direita esticada, com o dedo mindinho indicando o caminho.

Tenho vícios praticamente patológicos. Gosto de anos pares, pois acho que combinam com o número de letras do meu nome. Que acendam os fogos para a minha sorte durar por um ano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Contrariando meu feminismo, exponho uma opinião frágil. Tenho que casar. O padre não me causa aflição, a sogra não me preocupa. Gostaria de desvendar os mistérios após o matrimônio.

Com o passar do tempo, a mulher é um adorno domiciliar. Cada aniversário um novo utensílio. Nada de perfumes ou lindos vestidos. Uma prática geladeira, uma batedeira útil. Objetos para lhe atar à casa.

Na lua de mel, uvas levadas até a boca, massagem com óleo de patchouli, hidromassagem e champanhe. Um spa com direito a luz de velas. Voltando para casa, os copos ainda estão na pia engordurada como os deixaram.

Ao receber visitas, só ela não nota como combina as roupas com as paredes da sala, as cores da sombra com o estofado do sofá. Seu sorriso vai se camuflando com a moldura do espelho, e então ela vira um monumento erguido na cozinha.

sábado, 22 de dezembro de 2007

O motorista fica avaliando as caretas de quem faz força para abrir a porta que não é automática. Lá dentro todos se divertem sem pensar em ajudar.

Sento-me recolhida, perto da janela. Vejo a árvore apagada da Lagoa, muito charmosa em suas vigas. Os pedalinhos de cisne estão estacionados na beira, esperando que a ameaça de chuva vá embora, trazendo os turistas eufóricos de novo.

Todos os sinais estão fechados pelo caminho. A cada parada, notava as plantas vivas, verdes com cor de verão, com flores bem abertas. O vidro impedia que eu as tocasse.

Fiquei pensando na história de derrapar e cair de van no lodo da lagoa. Adrenalina barata.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Ando sempre com pressa. Mostro-me desta forma para que os olhares não me capturem com cuidado. A cidade cresce e gera trabalho aos pedreiros, que nos horários de almoço deixam os olhos pairando em ancas desavisadas ou atrevidas.

Minha maneira é diferente, sem etiqueta. Atropelo em reboliço aqueles que ousam cruzar as ruas comigo. Não que minha beleza seja efetiva, apenas temo atropelá-las com minhas pernas gigantes.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Meu carro parece mais molhado que os outros. A chuva cai sobre o vidro da janela, impedindo a visão. As gotas formam um pequeno mosaico; brinco de descobrir um desenho entre os pontos que se formam.

Tenho aprendido muito nesses últimos dias. Não perco a paciência em ter que repetir as mesmas palavras. Diante de senhores e senhoras, aprendo com a memória falha; atuo em perfeita performance mostrando a minha surpresa em diversos ângulos. A idade chega e rouba a noção, impera a ingenuidade em repetir como se nunca tivesse sido dito antes.

No saguão do hospital (quase um hotel) ora fico muda, ora desembesto a falar. Incomoda-me a forma como as apresentações são feitas. Sorrisos, saudações carismáticas até a maca surgir pelo corredor e levar a emoção, contendo a todos.

Acaricio o rosto macio penso na possibilidade de que possa ainda ouvir apesar de tantos sensores pelo corpo. Seus estímulos permanecem nulos, mas teimo em sentir que a palavra é viva, e passeia pelo sangue ativando os neurônios.

Aguardo os olhos se abrirem, para que leve o susto embora. Torço pela vontade, pela perseverança. Amanheço com o sonho ainda nítido, você ainda me conta sobre a sua infância, sobre os tempos mudados. É a palavra que digo e me aciona os sentidos.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Há promoções para todos os gostos. Picolés com i-pods sugerem uma nova forma de trafico. Imagino cocaína congelada com sabores variados. Minha critica vai se limitar aos meus pensamentos.

De uns tempos para cá a novidade tem se aplicado para acompanhar a velocidade atual. A televisão digital se atrasa no Rio. Creio que São Paulo está sendo usado como cobaia para posteriormente chegar ao Rio de Janeiro, sem defeitos ou imagens distorcidas.

Meu entendimento é cerceado. Não conheço o Nordeste além de suas praias. Existe uma troca simultânea entre duas metrópoles ligadas pela Dutra. Eu a conheço mesmo sem lembrar de suas paisagens e engarrafamentos.

O Brasil de muitas nacionalidades acaba me embaralhando em seus sotaques. Eu mesma, carioca, pronuncio tanto as vogais que não me consideram tal.

Os anos passam, trocam as modas, as novelas. Cada dia que passa, sinto a inutilidade no meu empenho. Tento lembrar como estava a arvore de natal da Lagoa, não me recordo. A lembrança se mistura com a vontade e tudo passa sem que a memória consiga recordar. A velocidade gera certa amnésia. A informação simultânea me confunde e faz com que eu esqueça.

Esqueço a distância pela facilidade de se comprar passagem aérea. Esqueço que o dia tem hora fixa, e mesmo acordando as seis, vinte e quatro horas são relativas.

Atarraco muitos pensamentos. A novidade se esforça para unir fragmentos. Digo coisa nenhuma com freqüência. Chego a ser incoerente. Sou parte do produto abreviado que diz tudo pela metade.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Espantei-me com a ignorância escancarada. Surgiu um crustáceo em minha frente, ameaçando querer beliscar meu dedo mindinho. Não soube dizer se o que vi era um caranguejo ou um siri; perguntei com discrição, mas a resposta não veio. Acabei me confortando em não saber sozinha.

Cachorros se afogavam nas ondas. Pombos queriam meu coco. A manhã era dos bichos. Todos os homens eram porcos. Eu me contorcia feito cobra tentando achar uma posição para ler.

Disfarcei-me de turista, pintando a pele de vermelho por raio ultravioleta. Acabo envelhecendo alguns anos entre as pintas, mas me sinto linda molhando os pezinhos para não ter choque térmico.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Pedro gostava de ir ao cinema. Adorava o Almodóvar, só por que tinha o mesmo nome que o seu, ficou sendo seu apelido. Passava horas na internet burlando a lei para nutrir seu vício.

Trabalhava numa gráfica em que xerocava tudo ao contrário. Seu chefe passava a tarde tentando explicar como mexer no papel. Permanecia no emprego pela sorte de ter o chefe como cunhado.

Augusto era casado com Genalva, mas tinha revistas impróprias no banheiro. Foi tamanho o espanto de Pedro ao abrir o armário perto da pia, e encontrar a Mônica Veloso estampada na capa, com a cadeira lhe tapando o mínimo. Desde então Augusto passou a mimá-lo, aumentou até o salário. O silêncio sempre lhe foi lucrativo.

Todas as tardes antes de ir ao trabalho, Pedro passava em frente à locadora para ver quais eram os filmes que não conhecia, Por tantas vezes cruzar pela mesma porta, deu de cara com a graça da balconista. Apaixonou-se pela idéia dela saber o nome de todos os filmes. Gostava de chamá-la por Sofia Loren, sem que ela percebesse ou manifestasse reação.

Genalva aparecia no final de semana, com um embrulho de pão de cebola, exibindo o orgulho de quem mesma o fizera. Sentava no sofá florido da sala e punha-se a falar; dizia que Augusto desfiava elogios todos os dias. Mal sabia ela do armário da pia do trabalho.

Durante a noite de domingo Pedro abusava da boa vontade da irmã. Havia escolhido alguns filmes para assistir. Depositava os pés na cadeira de plástico, estrategicamente posicionada, e pedia para Genalva ir fazer a pipoca, trocar o filme, aumentar o volume.

Em um domingo chuvoso, Genalva notou um olhar diferente no irmão. Seus olhos caídos emudeceram a preocupada fala. Com muita cautela, Genalva perguntou o que havia acontecido, ele respondeu: Sofia Loren, Sofia Loren; e saiu pela porta sem dizer para onde iria.

Pedro estranhamente trocou o elevador pela escada, assustando o porteiro ao sair pela porta que nunca se abria. Foi até a locadora para encontrar sua protagonista predileta, Ele havia decidido alugar um filme, deixando de lado a pirataria.

Chegou à loja, entrou sem aparentar nervosismo. Percorreu os olhos pelas prateleiras com os olhos luzindo. Por um segundo sua memória foi para bem distante, nos tempos de criança, quando assistia Aladim nos feriados de chuva. A nostalgia cessou quando a luz faltou, uma voz masculina veio acudi-lo na escuridão. Sem saber o que fazer, disfarçou, ligou para casa e disse: Genalva vem me buscar que estou odiando este lugar! Estou na locadora da esquina, mas não vejo nem mesmo a maçaneta.

Passado o vexame, Pedro quase dormia deitado no tapete manchado da sala. O interfone tocou, Genalva foi atender e pediu que alguém subisse, exclamando lá de dentro da cozinha que uma amiga viria ver o último filme do domingo. Sem saber quem viria Pedro nem arrumou os cabelos.

Genalva abriu a porta acendendo a luz, dando dois beijos de bochecha, apresentando a amiga como Penélope. A fotofobia impediu que ele a reconhecesse de imediato. Era sua Sofia, que o abandonara na escuridão com os clássicos. Mal pode acreditar que seu nome era Penélope. Passou a chamá-la de Penélope Cruz, a queridinha do Almodóvar. Ficaram os apelidos entre os chamegos de domingo à tarde.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Devo recorrer à história para citar revoluções. Espero um dia pintar o rosto e uma cartolina com palavras válidas.

Sempre gostei de falar alto em tom autoritário para testar a emoção dos outros. Os temperamentos estão mornos, todos nadam na tendência.

Atento pelas crianças que gritam nos balanços no parque enquanto os pais divorciados paqueram uns aos outros. Concluem o estado cíclico da novidade.

Penso no futuro estático, suas classes, suas mentes, na pequeneza dos atos se perpetuando no tempo. Olhos arregalados denunciam minha ação reacionária.

Não queimaria soutiens pelas ruas, nem mesmo pneus. Queimo biscoitos no forno enquanto canto música antiga. Meus ideais são preservados na minha contrariedade. Minha voz miúda ganha força entre conversas inocentes nas tardes tediosas de domingo. Assim não morro, vivo nos ouvidos dos outros.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sentei no banco da praça quase vazia. Os pombos se alvoroçam ao me fazer companhia. Há tempos não via gatos ali.

Passei um tempo pensando no ano que quase se completa. Não tive oportunidade de respirar neste último semestre, ficou uma sensação de que a vida deu um tempo e me espera para ser renovada ou que terá outra chance de fazê-lo.

Lembrei-me dos fogos na praia; parecia que nunca iriam parar. Uma guerra de luzes e barulhos que enlouquecem os cachorros que ficam momentaneamente mudos.

A rapidez dos fatos contrastou com a vagareza da simplicidade dos meus objetivos. Os livros acompanharam-me durante o ano inteiro. Travei batalhas entre os teoremas, vi coerência entre os recursos humanos e importância de usar músicas como artifícios de memória. Virei minha própria vilã, lutando contra o sono, a fadiga mental e a tpm.

Senti falta dos amigos no mesmo estado, mas eu me ocupava tanto no egocentrismo de me por em primeiro plano que acabava achando besteira me preocupar com isso.

Dizia sim para todos os convites durante o inicio do ano, porém acabava sentindo um remorso ao pensar na concorrência. Tomei conhecimento que bem antes de ser inserida no mercado de trabalho teria que conviver com isso. Passei a dizer não. Somente negava sem dar explicação. Bastava eu lembrar do conteúdo que ainda não dominava.

Busquei minha clausura. Namoros terminados. O foco era só um. Chegava a ser chato saber que eu estaria sozinha sempre. Dava um jeito de pegar uma corzinha para fugir do rótulo pálido os vestibulandos. Acordava muito cedo e ficava lendo. As vezes distraia-me pelo vicio de fazer leitura corporal. Qualquer movimento eu relacionava a física.

Eu entrava em transe quando as provas se aproximavam queria um spa, uma sessão de massagem, qualquer coisa que me relaxasse.

Descabelei-me tantas vezes. Comi como se fosse o último prato, repetindo varias vezes. Por sorte emagrecia limpando a casa nas horas vagas.

Assim o ano se passou, com letras muitos amistosas.

Pensei tudo aqui sentada no banco, e o ano ainda nem acabou. Logo me apaixonarei por um herói épico, ou mesmo por Lusiadas e acordarei somente quando os fogos iluminarem o céu outra vez.

Ele era um garoto novo na cidade e o único emprego que conseguiu foi em um botequim pequeno e fedorento perto de sua casa. O lugar tinha apenas um balcão, várias garrafas de pinga barata, uns velhos pacotes de Ruffles que ninguém pedia e uma pequena estatueta do Humberto Gessinger, de quem o dono era fã.

Trabalhava todas as noites servindo os bêbados. Era sempre a mesma coisa. Os mesmos clientes, as mesmas cachaças e os mesmos pacotes de Ruffles apodrecendo. Já pela manhã, chegava a parte mais difícil: limpar o vômito dos bêbados que sobrava no balcão.

Quando o trabalho ficou insustentável, pediu demissão. Na noite seguinte, foi para o botequim onde trabalhava, sentou-se no balcão e pediu uma pinga. Passou a madrugada bebendo ali. E todas as madrugadas seguintes da sua vida.

Ficava até de manhã tomando aguardante no mesmo botequim onde havia trabalhado. Não porque não houvesse mais nada pra fazer naquela cidade. Mas é que, àquela altura, nada o deixava mais satisfeito do que limpar o próprio vômito.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Lembro-me com clareza do tempo em que havaiana era coisa de pedreiro. Daquela azul e branca, clássica. Hoje eu posso ir a Europa montar uma tenda e viver deste comércio.

O consumo está mudado. Imagine que em tempos distantes os escravos andavam descalços. Hoje uso salto alto para levantar a auto-estima e desestruturar minha coluna.

Vivia tropeçando com minha havaiana lilás. Não sabia que desculpa dar quando ia caindo; culpava até a gravidade. Fingia que saltava todas as vezes, sempre havia um buraco no caminho mesmo.

Recordo-me com orgulho do dia em que comprei a marca concorrente, tirei dos pés e corri descalça, sem algemas ou marcas, apenas uns cacos de vidro.

sábado, 24 de novembro de 2007

Sentada no banco mais alto do ônibus avisto o morro e seus barracos. Não chego a entrar em suas vielas ou passear por suas escadas, apenas observo o que não conheço nem critico.

Vejo fotos de vereadores expostas no alto e fico pensando que tipo de comida, roupa ou regalia o morador teve para expor aquele rosto sorridente e seus números.

O homem sorridente da foto só está em imagem, eu mesma nunca vi um de perto, acho as vezes que todos usam perucas e dentes postiços. Todos têm uma fina estampa que a realidade deve consumir.

È como um pesadelo, passeio na rua com a impressão de ser observada por todos os olhos de plástico. Torço para que a próxima chuva arranque todas aquelas cabeças, mas que não tapem os bueiros.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Resolvi lutar pelos meus direitos. Quero beijar em público, andar de mãos dadas; nada mais que isso.

Saí na rua para conferir a Parada Hetero. Em um primeiro momento achei divertida a iniciativa, mas não contava com a surpresa. Em uma bela tarde de domingo, havia umas cem pessoas, e eu no meio do aglomerado reduzido. Senti-me tão sozinha.

Voltei para casa lamentando a solidão. O mundo era um arco íris e eu deveria me conformar com isso, reduzindo minhas demonstrações de amor explicitas.

Pensei que seria só esquecer essa história por algum tempo, mas as eleições chegaram. Depois do Guaragay eu poderia esperar por tudo, menos isso. Todos unidos jamais seriam vencidos. Em campanha, eu podia ver todas as cores no palanque. Eu perguntava o que havia de mais naquele homem de cabelos bem cortados e terno impecável. Ninguém me respondia com coerência, diziam ser um deles e bastava dizer isso.

Depois de eleito, vi meus direitos cerceados, minhas ações eram sempre pequenas, insignificantes. Os banheiros eram unisex, eu tive que aprender a usar o mictório contra a minha vontade, e usar calça até para dormir.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Ouço gritos pelo caminho, acabo escondendo-me atrás de um tronco retorcido. Logo me encontram, encolhida atrás da esguia árvore.

Aponta-me o dedo e começa a gesticular. Suas unhas sujas ameaçam invadir minhas narinas, tamanho o entusiasmo de suas mãos. Nada posso fazer a não ser ouvir o sermão.

Voltei para casa cabisbaixa, pensando no que havia feito. Nada. Meu silêncio custou caro desta vez. Faltava apenas me sacudir, ou me esbofetear,

Aprendi a falar sempre, sorrindo em concordância. Tudo para manter meu nariz a salvo.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Impulsionado pela violência explícita, Bruno não tinha medo de correr perigo. Foi ao cinema na estréia de Tropa de Elite e aplaudiu de pé seus tiros cinematográficos, sentia que alguma coisa mudara. Uma transformação ocular havia ocorrido.

Chegou ao trabalho falando grosso, Bruno mudara muito na última semana, não foi somente ele, o Rio e suas beldades davam lugar a chuva e as ameaças do governador de ser severo em todas as circunstâncias.

Bruno sentava para comer um sanduíche no minuto que sobrava para o almoço, tinha um olhar vazio, sem nenhuma expectativa visível, nem fome aparentava ter. Sua frieza assustava a garçonete que não mais abria o sorriso na hora da despedida.

Calado frente ao computador alternava os protocolos com o estudo dos calibres. Trocava de página quando alguém passava pela sua sala. Queria fazer uma surpresa! Ser herói a qualquer custo.

Achava que era uma ameaça. Disperso, quase atropelava as senhoras na faixa de pedestre. Egoísta, não dividia a cama com o cachorro. Era um louco disfarçado.

Depois de um mês de estudo, comprou uma pistola usada. Calibre 35/36, como nos antigos filmes. Saiu de casa com um estranho sorriso no rosto.

Ironicamente naquela manhã seu carro soltou fumaça por todos os lados. Não teve tempo de averiguar o problema, apenas sacou a arma e a colocou na pasta estufada de papéis. Foi até o ponto imaginando o atraso que cometeria.

Passado algum tempo o ônibus abriu suas portas barulhentas. Bruno foi sentar na beira do banco, egoísta como era querendo a solidão do assento vago. Um homem entrou pela porta da frente, sacou uma arma igual à de Bruno. Tamanha era a inveja dele, que resolveu tirar satisfação. O vendedor havia garantido que era modelo único. Levantou-se rispidamente, foi o tempo de sentir uma ardência nas costas.

Eram duas réplicas do seu precioso artefato. Um homem havia pulado a roleta, portando uma arma igual a do comparsa. Bruno agonizava de inveja, não era pelo sangue que corria. O tiro saiu pelo lugar errado, ele queria ter sido o primeiro, mataria todos os que subissem no ônibus com gosto. Com a fome e a vontade que não teve durante o almoço.

Não teve jeito! Bruno resolver ser um astro. Posou de inocente, fez cara de santo e foi se encolhendo no chão. Virou mocinho atirando em bandido na hora do jornal nacional. No fogo cruzado ninguém reconheceu os rostos então enterraram os corpos na mesma cova. Ninguém soube de quem era quem.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Como um mutum, ponho-me a tagarelar durante a noite. Falo com o criado-mudo, conto-lhe como foi o dia.

Ando muito hipocondríaco. Minhas síndromes têm época, vêm e vão sutilmente, logo descubro uma fobia e torno-me insosso enclausurado em casa, mantendo diálogos com o rádio.

Meus amigos são médicos, todos muito bem apessoados. Aos poucos leigos que arriscam uma visita, aconselho logo um médico e arranjo uma doença para cada olheira que adentra minha porta.

Tenho medo da vida, e não é de morrer. Viver é como ir ao supermercado, a dúvida paira entre escolher o mais saboroso ou o mais saudável. Acordar sugere que o dia começa, mas ninguém diz quando a validade termina.

Moro sozinho, talvez seja esse meu antígeno, sou um corpo estranho entreolhado pelo espelho. Acho que minhas rugas causam aversão. Já que não saio de casa, todos preservam a memória da minha cara lisa, sem pestanas grisalhas ou manchas de sol.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Sonhei que eu beijava uma mulher! Levei um susto ao recuperar a recordação. Por sorte ninguém consegue saber o que se passa enquanto dormimos.

Fiquei meio acanhada, tentando descobrir se havia alguma fantasia infiltrada no pensamento. Só conseguia imaginar bombeiros sarados, o Cloney estirado numa cama king size. Coisas bem heterossexuais faziam parte do meu imaginário, nem menage passava perto.

Comecei a pensar como gay, sociologicamente falando. Foi como se um chip tivesse sido implantado em minha cabeça. Fui raptada e uma intimidadora luz iluminava meu rosto, tentando arrancar minhas palavras. Percebi que minha teoria devia fazer sentido.

Era lógico pensar que as passeatas gays têm vínculo com o governo. Tão logo dominarão o mundo, controlando a natalidade e mantendo a renda em meia dúzia de mãos.

Calaram-me com alguns milhões de dólares por isso hoje passo férias em Guantanamo.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Minha mãe sempre me proibiu de ir a parques de diversão, dizia que eu deveria estar grandinha para essas coisas. Nem chantagem emocional resolvia.

Vi meus colegas de escola falando sobre a roda gigante enquanto eu pensava que poderia cair lá de cima, já que mamãe sempre fazia um escândalo contando até nos dedos dos pés os perigos lúdicos. Criei uma fobia até pela roleta da entrada.

Agora que sou mãe, meus filhos puxam minha blusa e falam no ouvido que querem um passeio. Não há convite da escola para irem acompanhados pelas professoras bem aventuradas. Tento achar desculpa para não ir, prefiro que não saibam o que é medo, fobia ou coisas assim que agente inventa e que nada tem a ver com dormir de luz acesa.

Tomei coragem e levei meus pequenos para o parque da cidade. Os algodões doces tentavam me acalmar com suas cores de anilina. Tentei desviar seus olhinhos da grande roda até a hora em que suas mãos apontaram para o que direção eu temia.

Meus pés tremeram apenas. Respirei fundo e fiquei pensando que não poderia ser tão ruim assim. Sentei na cadeira enferrujada, apertando de leve as pequeninas mãos. Tudo começou a tremer enquanto eu pensava em desistir.

O momento mágico desvendava minha alegria. Eu parecia uma criança perplexa com a adrenalina de tirar os pés do chão.

Minhas filhas desceram do grande brinquedo dizendo que não teve graça, afirmando que era quase andar de ônibus, passando pelo quebra-molas. E eu que pensei ter coragem...

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Aprendi a cozinhar assistindo Ana Maria Braga e a Ofélia. Aperfeiçoei meus dotes ficando horas diante do fogão. Não via futuro nas panelas então comecei a poupar minhas unhas, comendo em selv service.

Prometi que iria largar as seis bocas, mas em toda festa planejada, eu era incumbida de levar o bolo, o pudim, as tortas, docinhos e afins. Promessas não funcionam bem, o vício vence toda vontade. Estava eu entre as travessas outra vez.

Não tinha dinheiro para comprar os ovos. Fiquei pensando em um modo de transformar a cozinha em trabalho. Plagiei a idéia de alguém muito brilhante. Fiz cartazes e panfletos. Minha foto no jornal de domingo para chamar crianças para se ocuparem fazendo doce.

Tocou o telefone. Muitas matrículas foram efetuadas, minha satisfação era notória. A campainha tocou com risadas atrás da porta, crianças de meio metro invadiram minha sala. Recrutei os meninos pondo um chapéu profissional, dando-lhes colheres de pau.

Cozinhamos todas as quartas pela manhã. Cada dia aparecia mais um. Eu já podia pagar a luz com tranqüilidade.

Abri o jornal e vi ser noticiada uma crise. Achei estranho o mercado em déficit, o desemprego aumentara muito nos últimos meses. Não imaginei ter algo a ver com essa história.

Meu ledo engano passou, percebi que a culpada era eu! Minhas crianças tomaram o lugar das empregadas e copeiras. Estavam todos desempregados. Ninguém reclamava do trabalho infantil.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sou bem ruim em muita coisa que faço. Mas em algumas eu consigo me superar. Por exemplo, guardar rostos (e associá-los a nomes).

No meio da semana que passou fui numa dessas festinhas que a gente tem que ir por conta do trabalho. Não me sinto confortável nessas ocasiões. Geralmente, encontro umas quatro ou cinco pessoas que eu conheço. E umas dez ou onze que me conhecem - mesmo sem eu ter a menor idéia de quem sejam.

Não é por mal. Talvez o excesso de “mate de latão” esteja acabando com a minha memória. Outro dia, para dividir uma conta no Plebeu, precisei lembrar de como se resolvia equação de segundo grau. Jamais acreditei que equações de segundo grau pudessem ter uso prático, mas foi uma situação meio específica. O fato é que eu não conseguia lembrar de jeito nenhum. Sequer soube dizer se tinha um "delta x" na fórmula. Fiz como sempre fazia nas provas de matemática e chutei "1" para x1 e "-1" para x2. Na confusão, o garçom acabou ficando com 234% de gorjeta, em vez dos 10% habituais.

Desde então, só vou para o bar com uma calculadora científica, embora não saiba como usar.

Mas não é isso que vem ao caso. O que importa é que, com essa memória fraquinha, também não guardo rostos. Normalmente, passo por antipático ou mal-educado, porque não reconheço as pessoas. Juro que não é a intenção. Por isso, se eu passar por você e não der um "oi", considere que 1. não sou míope, e 2. mas tenho memória fraca.

Desenvolvi, no entanto, uma técnica. Consiste em puxar assuntos que possam me dar dicas de quem é a pessoa que veio me cumprimentar. Coisas como:

- E aí? Ainda está na condicional?

Ou:

- Como é que vai o seu crocodilo de estimação?

Ou:

- Tem visto o pessoal do arremesso de chaleira?

Ou ainda:

- Já terminou de fazer o maior cesto de roupa suja do mundo?

Pode acontecer de a pessoa responder qualquer coisa nessas horas que me sirva de pista. Claro que isso nem sempre funciona. Nesse caso, tento um último recurso. Chamo a pessoa de um nome qualquer, na esperança de acertar. Em geral, tento "Demóstenes" para homens ou "Mafalda" para mulheres. Na verdade, eu não conheço muitas "Mafaldas". Mas sou fã das tiras do Quino.

O uso inadvertido dos ipods fez do silêncio uma regra. As mesas dos restaurantes estão cheias de homens e mulheres sós, monopolizando os gostos em seus ouvidos, sem olhar para a mesa o lado.

Uma tragédia abalou o mundo. A individualidade sensibilizou os ouvidos da multidão. As minhocas que saem do ouvido causaram danos que ninguém calcula. Todo mundo ficou surdo!

Nunca fui adepta da modernidade por isso minhas orelhas só foram adornadas por brincos. Jamais quis comprar um desses aparelhos, pois canto alto e gosto quando acompanham minha melodia. Sempre preservei minha audição, a dos outros não.

Ninguém mais podia ouvir meus agudos. Nenhuma reclamação sobre o que eu cantava. Isso me preocupou!

Todos pensavam que o silêncio fosse uma nova tendência e em silêncio não escutavam as buzinas. Morreram muitos na rua. As aulas andavam vazias, pois todos pensavam não haver sinal. Ninguém sabia que horas eram, pois para eles o sino não soava ao meio-dia.

Ao pé do morro ouvi um batuque. Fui averiguar a algazarra e dei de cara com os tamborins tocando. Participei da festa particular.

Voltei para casa para ver se meu amado sabia o que estava acontecendo. Gritei seu nome inutilmente. Havia uma minhoca saindo do ouvido. Nunca mais ouviria minhas palavras de amor, só entendeu isso quando eu acenei e fui embora.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Nunca acreditei em monstros, exceto o chupa cabra, que depois de crescida não fez parte do meu imaginário. Sabia que Papai Noel era um burguês que induzia a todos a comer e comprar muito para esquecerem a amargura de um ano inteiro.

Achava engraçado comer ovos de chocolate e associar isso a um coelho, como se as crianças soubessem o que é fertilidade. Depois reclamam da precocidade das coisas.

O folclore e o culto são burros! A ignorância impera sendo fácil de ser constatada. Ninguém lembra que Curupira tem os pés virados. Qualquer pesquisa evidencia que trocam o dia da República por Tiradentes. Eu mesma troco tudo, e sou feliz por não saber de nada.

Comemoro o Natal pelos presentes, a Páscoa pelo chocolate. Faço do meu aniversário um motivo para enfeitar um bolo, repetindo tudo com gosto. Uma revolução botaria tudo a perder.

Imagine as comemorações longe da casa da avó, sem mesa cheia de gente e comida? Imagine o ano novo sem fogos, sem roupas brancas e abraços a meia noite no horário de verão? Seria mais fácil trocar as datas, comer nozes no inverno tropical, vestindo branco no dia de finados.

sábado, 20 de outubro de 2007

Era madrugada quando resolvi subir no muro para arranjar distração. Deslizei pela marquise do cinema, tomando cuidado para não fazer barulho para os que passavam na calçada. Troquei o letreiro do cinema por algo mais divertido. Um sintoma altruísta. Escrevi meu nome. Ninguém deveria notar o novo efeito até amanhecer.

Passei no mesmo lugar pela manhã para ver o que acharam da minha arte escrita. Uns não notavam diferença, outros acharam graça. Nada fizeram para mudar as letras de lugar. Assim ficou meu nome lá, com ares de estrela, encantando quem passa e reconhece semelhança entre os pronomes próprios em cartaz.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Calculei mal a hora. Elaborei o cardápio com muito capricho, mas não dei atenção aos ponteiros.

Comi folhas com as mãos. Penteei o cabelo. Fisguei o nhoque com o garfo em formato de tridente. Troquei de roupa uma dúzia de vezes. Engoli o suco. Calcei os sapatos. Lavei a louça. Escovei os dentes. Saí pela porta de trás, levando o lixo para fora.

Corri para o ponto do ônibus. Não deu tempo de chegar até a outra calçada. No meio da rua subi as escadas do veículo, tropeçando entre o segundo e o terceiro degrau, me segurando na roleta.

Há três meses não sou legitima. Enrolei tempo bastante para renovar minha carteira de identidade. A maioridade não moldou meus adiamentos.

Cheguei ao shopping esperando ser recebi com categoria. Havia posto lápis nos olhos para sair bonita na foto. Chegando ao segundo andar, vi muitos bancos ocupados, fiquei pensando como era bom ver tanta gente aproveitando a tarde para passear no meio da semana. Contente, fui até a porta do Detran, um homem barrou minha entrada dizendo que eu deveria entrar na fila. Olhei para onde ele apontava e notei que era para o último banco.

Conformei-me em voltar outro dia. Dei uma volta entre os mendigos no centro. Apaixonei-me por um par de sandálias, mas tive que abandoná-las na vitrine.

Resolvi voltar para casa. Fiquei esperando o ônibus, imaginando uma canção para embalar a espera. Um homem veio correndo com uma bolsa na mão, empurrando-me em direção ao asfalto. Meu ônibus chegou e me levou até a esquina, entre suas rodas.

Não acharam nenhum documento. Eu era um indigente. Uma multidão se aglomerava ao meu redor, um homem falava ao telefone disfarçando a voz; destacava-se entre os outros pelos óculos escuros. Uma voz gritava no celular, chamado à ambulância. A ambulância chegou minutos depois. Meu corpo foi posto na maca. Não fui para o hospital. Acordei na sala de anatomia com minha irmã examinando minhas lindas unhas.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Sempre quis redescobrir o que havia por trás daquela porta. O quarto escurecia no meio da tarde. Evitava ousar tocar na maçaneta depois de tanto tempo.

Minhas lembranças estavam ali trancafiadas. Minha memória em anexo. Era em fotos que eu esquecia o passado, tudo amarrotado em caixas. Misturava a infância com a maturidade, os hotéis com paisagens, viagens com a rotina. Perdia a cronologia. Era estratégia para não ter arrumação que pudesse pôr tudo em ordem, para não saber distinguir o começo do fim.

Resolvi procurar a chave. Não obtive êxito. Meu coração disparou, bati na porta em desespero como se alguém pudesse abri-la, como se uma foto tomasse forma, andando para me acudir.

Perseguia-me a ausência de recordação. Os sonhos não possuíam rosto, apenas o meu. Era estranha a sensação de solidão em reflexo.

domingo, 14 de outubro de 2007

As orelhas implantadas pelo corpo não me assustam mais. Leio o jornal pela internet, às vezes sinto saudade de tocar o papel e ficar com a sensação de que meus dedos estão sujos.

As notícias se repetem. As imagens possuem mais importância que o ínfimo texto. Basta passar os olhos pelas fotos e já dá para deduzir tudo.

Canso de ficar sentada exercitando os olhos e vou para rua. Alugo um cachorro alheio para me fazer companhia. Paro para tomar água de coco até que um homem estende o braço e diz ser por sua conta. Achei estranho, normalmente se paga por martine, caipirinha e cerveja escura. Tive vergonha de recusar a oferenda, peguei o canudo e fui sentar no banco adiante. Ele veio trazendo outro coco, já se apresentando.

Ficamos conversando e quando vi estava mostrando os pulsos e cruzando as pernas em sua direção. Era um bom e um mau sinal.

Não sabia o que fazer. Encontramos-nos com freqüência depois daquele dia. Havia um problema; ele era feio. Não sabia onde esconder aquele nariz gigante, a risada eufórica que me constrangia, tinha vergonha de dizer que era ele.

Inventei uma desculpa e o levei para o salão com a intenção de domesticar aqueles cachos. Nada dava jeito, tive que passar formol. Evitava beijá-lo em publico, negava suas mãos em contato com as minhas. Domesticava seus gestos exagerados.

Tive uma lembrança súbita do implante de orelha. Estava tudo resolvido, encontraria um rosto novo e seríamos felizes para sempre.

Saí no cair da noite a procura de um galalau. Encontrei um tipo italiano com nariz afinado, olhos grandes e amendoados, uma boca bem traçada. Eu tinha que ser rápida, abatia a presa com um golpe na cabeça. Achei que ele não tinha morrido de primeira, acertei-o outra vez por garantia. Destaquei a face e colei. Casei dois meses depois.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Fui para Bariloche porque o dólar estava desvalorizado. Reconheci alguns amigos no avião. Dormi. Desembarquei com todo mundo falando alto, dando dois beijos e dizendo até logo.

Os taxistas falavam entre dentes que havia carros lá fora por um preço camarada. Olhei o homem na cabine reprimindo-me com um olhar fulminante. Preferi usar o transporte que parecia mais legal.

No hotel uma confortável cama me esperava. Um quarto colorido com vista para a avenida que não parecia ter fim.

A cidade lembra um formigueiro. Todos vestindo seus sobretudos com faces rosadas de frio. Há muito estilo em aparentar ter uns vinte quilos a mais. Montada em botas de saltos altos, até em mim caiu bem.

Passeando encontrei alfajor made in Brasil, Caetano cantando no topo das paradas, pessoas de luvas manuseando suas capas, com bicicletas encostadas na mureta.

Na rua, pedaladas para espantar a temperatura baixa. Sorvetes nas vitrines, a língua passando e grudando nos lábios congelados.

Andei de esqui imaginando estar na Suíça, para tornar tudo mais fascinante. Amorteci a queda com os casacos que vestia. Caiam mais três comigo e toda vez que eu ia perguntar se estava tudo bem, rebuscava meu castelhano, mas obtinha a resposta em cru português. Devia ser espontâneo!

No jantar a lareira estalava, me aquecia com chocolates embebidos de licor. Não me restara escolha senão passar fome. Sem comer carne é difícil se alimentar quando só são servidos cervos e bifes sangrentos. Ficava só na entrada de legumes. O doce de leite era suficiente para enganar o vazio na barriga.

Encostava e embaçava o vidro, desenhando qualquer coisa sem motivo. Passava o dedo sobre a superfície gelada, observando o que não estava fosco do lado de fora. Alguém que não conseguia identificar o sexo me acenava do outro lado da calçada.

Ouvi um tango do saguão e fiquei admirando os passos ligeiros. Ensaiava com os olhos meu próprio espetáculo, prometi voltar e me inscrever em uma aula de dança.

Quis ir embora com um objeto que me armazenasse a neve e o aglomerado de gente na bagagem. Comprei uma lembrança para enfeitar a cabeceira; voltei para casa e descobri que era o mesmo do camelô ali da rua.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Tive uma idéia extraordinária! Seria melhor se alguém não tivesse tido antes, mesmo assim ouso pensar em melhorá-la.

Sempre sonhei com o poder. Fascinava-me coordenar um milhão de pessoas, aplaudindo minha ignorância. Pelo machismo desisti de chegar a presidência de maneira confortável. Resolvi o problema! Eu deveria encontrar um bom partido.

Casar comove o povo, teria até um filhinho, lindo! Ele teria tendências esquerdistas, um corte estiloso de cabelo e estatura mediana. Meu suposto marido poderia ser qualquer um. Collor, Lula, Fernando, qualquer um! Casaria e pronto, meio pé no mandato. Seria fácil seguir os passos de Evita.

Treinaria para ser boa mãe, para não causar escândalos, estudaria culinária e faria crochê, sapatinhos para aqueles que me dariam as crianças para beijar a testa.

Daria um golpe na hora certa! È sempre previsível alguma falcatrua no governo. Quem mais poderia levar tudo à tona? Choraria em horário nobre, comovendo as mulheres de boa família, assim abocanharia a eleição seguinte, prometendo acabar com toda a sujeira.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Tudo parece estar em choque! O leite é exportado para a China, roubaram nossas vacas! Nosso álcool não satisfaz mais os poetas, nem mesmo os ônibus atendem ao meu sinal!

Não anda fácil visitar os parentes, as conduções já não colaboram. Causa-me certa preguiça. Um luxo em um ano como este!

Vou a aula e ouço os planos para a festa de formatura. Vestidos, penteados e sandálias, é tudo o que eu escuto. a pressa não se faz necessária. Logo será novembro e tenho certeza de que ninguém vai querer que ele chegue tão cedo.

Confesso que já tenho meu vestido, mas tenho meus motivos para ser a primeira a tê-lo. A moda me exclui pela cintura, tenho que me tornar auto-suficiente, apertando tudo o que compro, como se o tamanho da minha curva fosse algo repressível.

sábado, 29 de setembro de 2007

Alçou vôo pondo o peso do ar. Não dava para entender o motivo para escolher pular daquele lugar. Foi andando até a beira e pronto.

Fiquei pensando se não poderia ter pisado em alguma rachadura, ou simplesmente a parede estava caindo e levou ele também. Das vezes em que fui até a Uerj me contive a assistir algumas palestras e só. Admirava a imensidão de prédios intelectuais, o auditório quase subterrâneo, os gatos largados no gramado, mas nunca cheguei a ir até o décimo segundo andar para ver como é pularlá de cima.

Sem sarcasmo queria entender o que houve. Ninguém vai a uma faculdade que nunca cursou só para se matar. Minha curiosidade vai aumentando em vão. A esta hora o corpo já deve estar duro e minha solução não existirá.

Talvez a faculdade usurpasse o tempo de uma relação amorosa. Talvez ele sempre quisesse ter estudado lá, ou simplesmente ele deixou cair algo e tentou pegar. É um mistério que teimo em achar que posso solucionar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Esse tempo anda me deixando intrigada. Amanhece o céu claro, com os raios solares iluminando tudo. Posso sentir minhas proteínas se desnaturando.

A tarde cai nublada, tenho que desfazer meus planos para o final de semana. O calor não nos abandona. A chuva surge de surpresa e tão rápido vai se embora.

Lá fora negociam-se as cotas de carbono. Projetos para um meio ambiente saudável.

As garrafas pet vão dominar o mundo, e entupirão todas as hidrelétricas. O planeta vai parar.

O calor que permanecerá continuará dando-me a sensação de desnaturação. Quem sabe eu consigo algum crédito de carbono para a minha vaquinha lá do sítio continuar liberando metano.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Dentro de um curso que não acaba nunca, ganho ou perco minhas tardes, dependendo do ponto de vista.

Enquanto as letras são desenhadas em um moderno quadro óptico tento focar minha atenção. Minha distração é inevitável. Acho tão seco o inglês que não tenho vontade de pronunciá-lo. Deve ser trauma dos turistas que freqüentam o Rio e vivem fazendo abordagens inescrupulosas quanto a jantares e motéis, como se eu não soubesse o que eles dizem.

Ficam ali todos repetindo os fonemas. A professora parece reger um coral, e todos parecem tropeçar na pronuncia. Quando paro para pensar, estou eu reproduzindo palavras soltas, simplesmente repetindo, sem querer dizer nada.

Deve existir uma hipnose ou coisa parecida. Eu tento me policiar para entender o que nos faz fazer tamanha insanidade. Imagine vários marmanjos falando ao mesmo tempo uma expressão da ordem, sendo ela “ good luck” ou “ see you again”.

Acho mesmo um tanto quanto estúpido a idéia de me alfabetizar de novo, tendo a certeza de que ninguém no exterior se atreve a pegar nosso Aurélio

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Fui hoje pegar a segunda via da minha carteira de motorista - ou "carta de motorista", como dizem em São Paulo, ou ainda "papel de piloto", como eu acho que dizem no Acre.

Mas enfim. Estava lá, esperando sair a minha senha. E o sujeito ia falando a combinações de letras e números em ordem aleatória: A31... D15... J56...

Quando ele gritou "C29", não me agüentei mais e gritei:
- Bingo!

Não gostaram da brincadeira e eu tentei de novo. Ele disse "E5" e eu gritei:
- Afundou um destróier!

Parece que eles me acharam gaiato. é que na minha vez, no lugar de me entregarem a habilitação, deram-me um disco de vinil do Costinha.

Agora ando por aí com um LP do Costinha no lugar da carteira de motorista. Era só o que me faltava: o meu passaporte já é um vídeo do Ary Toledo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Resolvi libertá-la de uma história antidiluviana. Ainda tinha cheiro de naftalina, um cabelo permanente. Foi difícil mudar suas gírias, tirar suas plataformas, seus pingentes de paz e amor.

Dei um jeito de vesti-la de amarelo. Um amarelo florescente da moda. Um verde como limão maduro.Havia ficado linda!Lembrava-me uma atriz antiga, com aparência esnobe. Tinha uma trilha sonora para cada romance.

Apagava o luzir de suas estrelas na hora de dormir. Não podia mais tocá-la para não lhe fazer sombra. Seu brilho ofuscava meus planos.

Botei-a em um papel de figurante, contra a regra obstante. Roubava a cena mesmo assim.

Os holofotes miravam-na com destreza. Do alto de seus saltos, tentava logo formular um espetáculo instantâneo, mas caía no erro da concordância.

Dei um show de improviso. Borrifei água no liso da escova dos cabelos. Errei a mira e taquei em sua face o puro líquido. Vi suas rugas surgirem, desfazendo-se o sorriso paralítico de botox. Foi assim que a matei. Fico pensando se foi o flúor, o cloro radioativo da água, ou mesmo a raiva do ciúme.

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Gosto de me auto-medicar. Na verdade, sou péssimo com isso. Sempre confundo os nomes dos remédios.

Agora, atacado por uma gripe meio estranha, abri a gaveta dos remédios, coloquei a mão lá dentro e escolhi qualquer coisa, ao acaso. Peguei um band-aid. Não sei se era bem o que eu precisava. Eu pensava em tomar um comprimido, sabe? De qualquer modo, engoli o band-aid com a devida ajuda de um copo d'água.

Tem alguma química na composição do band-aid que me fez começar a ver coisas.

Primeiro, vi o meu quarto se encher de água do mar. Não sei se isso foi influência do Joseph Conrad que estou lendo, ou se foi o aquecimento global que finalmente fez o nível do mar subir até o segundo andar, onde moro.

Depois, vi nadar por ali um papagaio-marinho. Foi aí que eu estranhei: "Que eu saiba, não existem papagaios-marinhos. Talvez isso seja mesmo alucinação causada pela ingestão do band-aid.

"Até que a viagem de band-aid não foi tão ruim. Mas também não chegou a me curar da gripe. E agora eu tenho que freqüentar um desses grupos de ajuda para pessoas que viciaram em engolir band-aids. Só por hoje.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Praticando o hedonismo, estendo o corpo sobre a pedra; tomo um banho de lua admirando as estrelas e o céu sem nuvens, transcendendo a pressa habitual.

Volto para casa leve, com a frescura da brisa que me toca. Lá de fora venço o medo do amanhecer. A lua logo dá lugar ao sol. A luz me descobre, não posso fingir. Ponho uns óculos escuros e vou caminhar, fantasiando a idéia de que não irão me reconhecer.

Por um segundo eu quis ter a previsão do futuro. Imagine poder saber se ainda existe pensamento entre nós dois, se ainda existe um fio que nos liga transmitindo a vontade de prender o sentido em uma redoma para proteger da voracidade do destino que desconhecemos.

Minha filosofia de prazer apresenta-se na adivinhação e disposição de novas idéias. Tenho poderes em mente. Além da previsão posso até mudar as coisas de lugar sem que precisem saber que faço isso com as mãos ao em vez de deslocá-las com o pensamento. Os fins justificam os meios. Seria tão tolo observar a verdade com olhos racionais, melhor é ver logo o grand finale com magia, faíscas saltando dos olhos. Olhar o inexplicável é crer que tudo é possível.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Pude sentir a liberdade invadindo a porta. As paredes não impediam a energia de entrar. Sentia tanta força, como se pudesse voar.

Percebia os substantivos de outra forma. Cada árvore que via da janela tinha vida. Desci e fui pisar no asfalto para encontrar a razão de tanta mudança. Deparei-me com uma ventania que desarrumava o cabelo,atrapalhando a visão. Debrucei-me por entre os muros. Vasculhei por entre os portões, pedindo licença, dizendo que procurava algo muito especial.

Sentia como se houvesse uma trilha sonora para aquele momento, um Bolero de Ravel ou melodia similar. A música era tão forte que a cada passo que eu dava ouvia uma estridente nota no ouvido, com uma força que contraia os sentidos. Soava meu próprio coração e eu não acreditava no que ouvia.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Gostaria de poder observar meu próprio rosto. Será que evidencio sobrancelhas arcadas, ou danço com os olhos sem saber bem como pousá-los diante de uma afirmação bem ínfima.

Encontro-me como uma personagem da novela das cinco. Juvenil e confusa, entrelaçada entre a dúvida.

Eu me enforco na corda em que eu mesma ando. Parece engraçado a minha dúvida. Tento analisar os fatos sendo muito racional. Sei que é triste acreditar nisso. Eu peso o certo e o duvidoso, no final eu troco tudo, invertendo a conclusão antes feita. É mesmo uma confusão sem tamanho, mal consigo medir os prós e contras. Sigo um impulso tolo e tropeço em minha própria pressa, como se o mundo fosse acabar hoje mesmo.

domingo, 9 de setembro de 2007

Havia um riso frouxo saindo da janela. Quando me debrucei para rir também, tudo emudeceu. Acho que pensaram que eu era outra pessoa,ou era mesmo sobre a minha pessoa a argumentação. Comecei a achar que o bafafá era mesmo sobre mim.

Notei o disfarce nos gestos tensos, tentando dissipar o veneno da língua. Não liguei para os possíveis comentários.

Desci as escadas de casa e dei apenas “bom dia”, esperando ser retribuída. Voltaram a rir, falando em murmúrios, repletas de falta de educação. Deu até vontade de dar-lhes um murro para que o silêncio reinasse durante a minha passagem.

A violência tem me consumido. Tudo me torna feroz. Evito levar para o lado pessoal, ignorando possíveis ambigüidades. Meu lado maniqueísta é que tem mantido minha ordem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Vi-me encurralada entre os sinais de trânsito. Queria um herói; alguém com capa e tudo!

Queria ser salva. Defesa é algo que todos preferem não praticar.

Não adiantou fazer minhas aulas de jiu-jitsu. Não posso reagir a um assalto nem falar mal de um boçal. A sociedade me reprime entre sorrisos e cochichos insubordinados. Planejo resgatar os heróis da tela do cinema. Admiro seus penteados após a luta! Golpes tão ligeiros e nenhum hematoma.

Ah! Como eu queria ter dinheiro o suficiente para contratar um segurança desses, se duvidar ainda poderia ser meu amante com uma fantasia própria. Capa e calção! Nada mais fashion! Sairia sobrevoando a cidade rindo dos pobres mortais, esquecendo até que eu sou bem humana.

Imagine os noticiários? Todos apontando para o céu, morrendo de inveja.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Já tive antes minha chance em Hollywood. Eu era o dublê do Bruce Lee. As cenas muito, mas muito perigosas mesmo, era eu quem fazia. Como aquela em que ele come um misto quente velho na rodoviária.

Fui chamado porque, embora em geral seja completamente diferente do Bruce Lee, eu tinha o polegar da mão direita absolutamente igual ao dele. Então, o diretor precisava filmar em planos bem fechados no polegar, para que ninguém notasse que se tratava de um dublê.

Eu estava indo bem, era o meu caminho para a fama e o sucesso. Foi aí, como sempre, que eu fiz besteira. Note, no entanto, que eu fui muito bem-intencionado. A cena era simples: eu deveria entrar na torcida do Malutron usando uma camisa do Bangu. Mas eu achei que poderia acrescentar algo à cena, dar um toque pessoal, construir personagem e aquela coisa toda.

Por isso, coloquei um esparadrapo na ponta do polegar. O diretor ficou furioso: "o polegar do Bruce Lee não tem esparadrapo!", ele gritava. Tentei explicar que havia me baseado na obra de Tennessee Williams e que o esparadrapo daria mais veracidade ao personagem. Tentei fazê-lo entender que, sem o esparadrapo, o protagonista ficava muito unidimensional. Tentei até tirar o esparadrapo, mas ficou uma marca no dedo e o diretor me expulsou do filme.

Depois disso, o máximo que consegui foi uma ponta num filme do Kevin Costner. O filme era bem ruim, mas pelo menos ele deixou eu ficar de esparadrapo no polegar. Se a cena não tivesse sido cortada, acho que minha carreira finalmente teria deslanchado.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ganhei o domingo visitando as crianças.

Um ato beneficente. Eu mesma era a contemplada. Talvez elas nem lembrem meu nome ou esqueçam meu rosto. Não importa, nada substituiria a cena da porta do salão se abrindo e todas as crianças vindo em nossa direção. Achei que minha preferida não iria me reconhecer, porém veio me abraçando a perna com entusiasmo querendo logo que eu a pegasse no colo e fossemos brincar.

Sentia a magia lúdica agitando minhas pernas. Meu sorriso era inevitável. Envergonhava-me por brincar só com ela, então juntei mais dois para rodar também.

O lanche foi logo servido. Eu tratava de distribuir os sucos nas pequenas mesinhas. Botava as mãozinhas para serem lavadas em fila. Era bom ver a alegria por uma simples visita.

Queria saber o que se passa naquelas pequenas cabeças raspadas ou cheias de lacinhos. Seus desenhos seriam formas simples de se desvendar. Decifrava a ausência de cores, os traços assimétricos. Não percebia grandes temores. Em minha audácia usava uma psicologia barata para entender os lápis em ação. Fazia maior sentido para mim, elas não davam muita atenção para a convicção dos meus olhos observando cada borrão. Procurava qualquer pista para entender o passado e os medos. Elas pareciam fortes e tão felizes que tive que achar outra distração.

Animava-me a vontade de dançar, pular e comer. Tudo ao mesmo tempo. Sorte das crianças que esquecem com rapidez a negação que a sociedade pronuncia. E eu achando triste não ter couve no almoço ou suco de melancia. Sou tão tola! Sorte que tenho a infância ao meu alcance.

domingo, 2 de setembro de 2007

Ando ocupado no meu novo livro. Eu ia escrever qualquer coisa sobre "Como Ganhar na Loteria". Um livro assim poderia me deixar rico. Bastava que, antes, eu ganhasse na loteria pra saber como se faz. Em seguida, era só escrever o livro e ganhar os royalties e tudo mais.

Nunca levei adiante esse projeto. Por mais que eu tente, não consigo acertar na loteria. Mas até que me dei bem em uma ou outra partida de par-ou-ímpar, apesar de ser péssimo na grande maioria dos outros jogos. Por isso, resolvi passar a minha experiência para o mundo.

Meu próximo livro é "352 Estratégias de Par-ou-Ímpar". Escolhi o número 352 ao acaso, porque acho que pode impressionar. Mas está bastante difícil chegar a mais de duas estratégias - e ainda assim, nenhuma das duas é infalível.

A primeira estratégia consiste em pedir "ímpar". A segunda, em pedir "par".

É um jogo difícil. São poucos que conseguem acertar sempre. Talvez facilite se você tiver seis dedos em uma das mãos, embora eu ainda não saiba como.

sábado, 1 de setembro de 2007

Desponta o dia. Quero logo desvendar as ruas. Um passeio entre as calçadas rachadas para ter inspiração logo pela manhã.

Jamais entendi o porquê de não poder cumprimentar estranhos. Só eu reconheço a vontade que tenho de sair correndo cantando alguma coisa que ninguém conhece, sorrindo displicente. Essa distância não me comove. Esbarro nos transeuntes só para ter desculpa para falar. Meu ato estranho parece fazer efeito. Vou me desculpando enquanto corto o caminho que não tenho.

Saio caminhando, buscando uma nova vítima para meu golpe chulo. Minha intenção de roubar palavras é inocente, quase infantil.

Divirto-me sozinha como se estivesse enlouquecida. Reconheço que este silêncio me incomoda e cutucar alguém simplesmente seria bem curioso. Por sorte ninguém desconfia! Meu sorriso extenso preenche a vontade deles de me ofender por um humilde esbarrão. É o que eu suponho, já que nunca ouvi tamanho insulto. Tomo cuidado de reconhecer os estranhos para não cometer o mesmo ato duas vezes. Assim vou socializando com a individualidade urbana, atacando seu silêncio para que não ocorra mais.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Sou um sujeito extremamente desajeitado. Se ao menos tivesse bom senso, evitaria fazer coisas mais arriscadas como escalar as Agulhas Negras, andar de monociclo sobre uma corda bamba ou trocar lâmpadas.

Contudo troquei o meu bom senso faz um tempo por um pedal de distorção pra guitarra. Pareceu ser uma pechincha naquela época.

O fato de eu ser desajeitado, portanto, não me impediu de tentar me tornar um grande escultor. Veja bem: não teria sido tão trágico se eu quisesse ser um escultor mediano ou razoável. Não. Eu queria ser um dos bons. Queria ser lembrado pelos próximos milênios.

E esse papo todo de escolher as novas sete maravilhas do mundo me deixou bastante empolgado. Se eu conseguisse refazer uma nova versão de Chichén Itzá, uma coisa mais moderna e atual, talvez ainda desse tempo de me inscrever no concurso. Isso seria o suficiente para eu finalmente ter fama e reconhecimento mundial. Talvez até conseguisse um desconto na temakeria do Leblon por conta disso.

Não sabia exatamente por onde começar. Parece que o Chichén Itzá original foi todo feito de pedra ou coisa assim. Pedra é um negócio pesado, bastante pesado pra carregar. E nunca levei jeito com argila. Achei, por algum motivo estranho, que clipes de papel poderiam ser um bom material e comprei todos que encontrei nas papelarias do Centro.

Primeiro, redesenhei Chichén Itzá no papel mesmo, com confortáveis escadas rolantes, um lindo letreiro em neon no topo e um simpático capacho de "Bem-Vindo", além de um fosso cheio de crocodilos famintos em volta.

Parecia bacana. Só faltava encontrar um lugar espaçoso o suficiente para começar a construção. Fui a um estacionamento bastante grande na Lapa. Tinha que ser rápido, porque já era quase o horário de pico e os carros poderiam chegar a qualquer momento. Na pressa, acho que fiz a coisa mal-feita e não saiu bem como havia desenhado.

Pra dizer a verdade, a escultura final lembrava um tanto a estátua do Miéle. O povo, revoltado com as vagas que eu estava ocupando no estacionamento, derrubou a escultura. Mesmo assim, tentei inscrever no concurso das sete maravilhas. Eles alegaram que não havia nada além de um amontoado de clipes de papel no lugar.

Tentei argumentar, dizendo que não eram clipes de papel, eram ruínas. Falei que Machu Picchu também era só um monte de ruínas e ainda assim estava concorrendo. Não adiantou.

Uma pena. Acho que vou tentar tudo de novo, só que dessa vez vou reconstruir o Colosso de Rodes. Talvez coloque um grande sanduíche na mão dele ou um fosso cheio de crocodilos famintos em volta.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Por muito pouco não vi o eclipse lunar. Acordei de madrugada para desvendar a completa escuridão. Fiquei vagando pela sala desafiando o sono.

As nuvens atrapalharam a vista, só fui notar isso quando me vi amarfanhada no sofá. A dor nas costas eu não conseguia disfarçar. Sem pantufas ou havaianas, segui para a cozinha para fazer um café e improvisar umas torradas. Alonguei-me no tapete fazendo pose de yoga, estalando as vértebras atrevidamente, sem indicação ortopédica.

A garoa me animava a ir à aula. Nada distrairia meus cálculos. Nenhuma maritaca se aventurando pela janela com seus berros escalafobéticos. Concentrava-me em cantar meia dúzia de refrões entre um número complexo e uma equação reduzida. Estava satisfeita com a certeza que sempre existiu; dois mais dois ainda são quatro, é uma das poucas coisas que não discuto.

Não demorou muito e o sinal tocou pela última vez. Podia ouvir a polifonia gástrica. Acanhava-me com a possibilidade de alguém ouvir a orquestra faminta no meu ventre, apertando o passo para cessar logo toda a fome.

domingo, 26 de agosto de 2007

Você devia ter visto o dia lindo que fez ontem. Vi as crianças mais belas do mundo, quis até ter uma delas. Insanidade confessa!

Estavam elas deslumbradas com a brisa marinha, emplastadas de filtro solar, empanadas de areia. Exercitei meu instinto materno olhando para elas, mas logo fui embora para preencher o estômago.

Apresso-me para fazer uma prova tola que só erro por desatenção. Hoje é um dia alegórico.

Hoje a avenida vai se enfeitar com as plumas. Parada gay agora virou rotina. A festa é mais animada que o ano novo, tocando seus ritmos eletrônicos para induzir os gestos exagerados. Já tenho técnicas para descobrir “será que ele é?”. Avisto uma multidão de óculos escuros então não resta dúvida.

O arco-íris sem vergonha adorna metade da rua e a multidão se amassa entre seus próprios gêneros. Fico olhando o jeito novo de reivindicar. Discordo do apelo de liberar a aliança entre eles, acho até uma bobagem, mas guardo esta opinião para mim. Danço no meio de todos, torcendo para nenhuma mulher se assanhar, então puxo o primeiro homem que vejo para não correr perigo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O passado não me choca, tampouco me condena, nem mesmo o mais que perfeito ou o imperfeito que seja. Certamente foi o pretérito quem me moldou, ele deixou todas as suas lembranças, lições e cicatrizes, meu passado é meu aliado.

O futuro que me incomoda, gosto das certezas do passado não suporto a escuridão do futuro, sou impaciente, me tranqüilizo apenas até o presente, dali para frente angústia me sacrifica.

Já o presente, ele é mágico, é a peça, o jogo final, o grande ato; o momento onde tudo se realiza, onde apenas o "eu" - o meu e o seu - jogam. Cartas na mesa! Prefiro jogar assim, sem segredos nas entrelinhas. Nunca escondi o quanto objetivo e direto é o meu caráter.

Enfim minha doce e misteriosa Vênus, o jogo deve ser real. Assim como foi aquele tango que dancei naquela chuvosa noite de domingo na Bombonera. Agora, no passado guardo na memória as lembranças inesquecíveis daquelas Noites de Ravel.

Encerra essa cena tola. Feche essas cortinas de veludo. A brisa do mar foi tão breve que não pude tocá-la com o afinco que imaginava.

Eu mesma pus um ponto final na exclamação incerta e estrangeira. Você não pôde notar nenhuma presença diante das minúcias da minha narração. Você devia saber o quanto exagero!

Atrevo-me a lhe culpar! Sua ausência abriu brechas inesperadas. Meu sorriso misterioso deve ter mesmo muito encanto, no triunfo de tentar desvendá-lo.

Espero que tenha aprendido a dançar tango e tenha comido muitos alfajores. Fico pensando no que não me conta. Aposto que encontrou alguém no aeroporto. Deve ter tantas novidades que omite. Seu interesse deve ter se moldado. Não lhe reconheço no pálido texto desfalecido. Vou descobrir por que o passado lhe choca.

Chegue inteiro no próximo avião, na cadeira executiva com uísque e algo mais.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Nao apelo mais para cenas de ciumes, nao apelo para o tango, tampouco me valho de ilusoes. Percebo que - mais - alguem divide o nosso espaco, algum ser invadiu seus pensamentos e comeca a dar novas asas a sua imaginacao. Culpa minha que me calei por longos dias, sem sequer emitir um sinal de fumaca no horizonte. Culpa minha que geralmente descuido das minhas conquistas passadas ou futuras.

Surpreso estou pela minha reacao a essa descoberta. Depois de todas as pedras que guardei do caminho que sigo, o meu castelo comeca (aparentemente) a erguer-se sobre uma solida estrutura que parece nao mais desabar com uma simples brisa que sopra do mar. Suspeito que essa brisa logo se transformara em tempestade, quica um tornado. Esse sera o momento de provar se as licoes aprendidas no passado foram absorvida e serao postas em pratica, nesse momento poderei ter a certeza que troquei minha Torre de Babel por um castelo que realmente me proteja.

Temo pelo pior, parece que aos poucos voce me escapa pelos dedos. O que antes estava muito perto agora comeca a ficar distante. Talvez minha unica chance seja encarar esse seu sorriso misterioso e abrir suas cortinas para o meu show. Mas isso nao depende apenas do meu desejo ou persistencia.

--> Esse texto carece de acentuação pois foi escrito em um teclado que não suporta o idioma português, prefiro não corrigi-lo.
;)

sábado, 18 de agosto de 2007

Minha fala havia absorvido valores que eu desconhecia. Dizia ele soar como música meu sotaque meio capixaba carioca. Apontava diferenças dentre tantas outras. Confessou querer me ver novamente.

Corava-me como no primeiro encontro a cada cinco minutos. Assumira o disfarce turístico com uma câmera nas mãos. Parecia querer me capturar com aquela lente efusiva da câmera de última geração. Queria me levar para casa de qualquer maneira. Assustei-me com a insistência dos flashes.

Desta vez era ele quem falava bastante, se desculpando pela demora. Já havíamos perdido o horário do cinema, e eu já tinha quase ido embora. Não sei explicar o que me fez ficar enrolando entre os corredores de vitrines em liquidação.

Sem ter muito juízo prendeu as mãos sobre meu vestido. Não conseguia mover a cintura para sequer outra direção além da sua frente. Eu virara uma presa fácil. Sem aviso lascou um beijo tão intenso que perdi o equilíbrio, pisando sobre os sapatos para alcançar sua altura.

Não disse que gostei! Vou para a fogueira, negando tudo! Mas minha reação afônica lhe deu o direito de repetir a dose, afirmando não precisar de tradução.

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

Não tinha planos de encarar ninguém, mas logo me vi escancarando os dentes sem cerimônia. Era estúpido o que eu dizia. Reparei estar falando de política, sem convicção, sem conhecer que partido defendia. Convenceria qualquer um que me ouvisse, tamanho era meu entusiasmo!

Gostei do jeito despretensioso que lançava um elogio ou outro, imaginando não saber onde encaixá-los. Eu não acreditava em nada. Não queria acreditar, cultivando o hábito da complicação. Em silêncio gostaria de pedir para ouvir de novo um predicado com gênero trocado.

Continuava meu discurso, crendo que ele não entendia nada do que eu dizia. Seu riso soava consentido, um riso conveniente preenchendo os lábios sem diligência.

Estranhamente eu não conseguia parar de falar. Eu, que normalmente tenho a mania de arquitetar a fala para não ter que repeti-la em tom mais alto, calculando a exatidão. Com certeza posso afirmar que não lembro de um terço do que eu havia dito! Ele também não devia ter escutado com tanta atenção.

A tarde havia sido ótima! Disse tudo como se fosse incontestável. Ninguém havia me condenado por isso.

Esgotei o dia gostando de corrigir as poucas falas que proferia, sem conjugar direito os verbos; gostando da idéia de adivinhar o que suas mãos queriam explicar quando quase batiam asas. Fui embora sem achar explicação para tanto impulso.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

No Dia dos Pais, Ipanema não parecia a mesma de sábado. Havia poucas pessoas nas areias, e nenhuma barraca a vista; mesmo assim fui com lápis e papel tentar escrever algo.

Lutei para domar as folhas em branco, voando raivosas a favor do vento. Não conseguia ver muita coisa em meio aos meus cabelos esvoaçantes. Devia estar parecendo a Maria Bethânia, com suas madeixas rebeldes.

Alguns pombos me faziam companhia enquanto eu achava uma posição coerente na areia que era quase particular. Poderia me estender em quatro cangas sem que alguém jogasse areia sobre mim. Não fui tão egoísta! Deitei sobre a canga preta e comecei a escrever sem me preocupar com a introdução. Distraía-me com a proximidade da calçada. O mar engolira boa parte da praia.

Apesar do frio, do som escandaloso das ondas e do vento, havia um ou outro se arriscando comigo. Aglutinaram-se aos meus pés dois rapazes. Ficaram ambos em silêncio, lendo livros com belas capas enquanto eu imaginava que reações teriam caso lessem o que eu escrevia.

Ipanema amanhecera às avessas. Os vendedores de canga lutavam contra o vento, e os quiosques estavam em completo prejuízo. A única coisa que estava em ordem era a quantidade de turistas. Não sei o que achavam da minha aventura de praia no frio, mas me observavam curiosos. Sorte é que eu normalmente não conseguia ouvir, ou simplesmente não os entendia.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Andar de ônibus é algo que consegue agitar meus neurônios. Não sei se é pelos carros que atuam como passageiros, ou se me projeto em outro plano, sentada sobre o banco com estofado colorido.

Passam ruas que não conheço o nome e pessoas que mal vejo o rosto. Ninguém nota a visão atenta por entre os vidros, então aprecio a cidade como se fosse minha.

A praia, a praça e a Baía informam o destino; as ruas sempre desembocam no mesmo lugar. Não há como se perder entre as vagas e lacunas na calçada.

Assusta-me quando o sinal fecha, e o malabarismo passa a ser apenas distração com o sinal verde indicando que acabara o espetáculo. Sentam-se os garotos com expressão de fome, provavelmente preferindo que as bolas fossem comestíveis.

Sigo o caminho dependendo do homem sério sentado no banco da frente, confiando que ele indique a direção certa e não erre o ponto.

Desço do meu trono espectador e perco a graça na pressa dos outros. Permaneço parada diante a faixa de pedestre e vou me perdendo na cidade que não mais me pertence.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Falta-me um pouco de tempo para escrever. Os estudos devoram meu tempo e tento descansar a mente quando é possível. Há momentos em que a cabeça anda tão cheia que começo dizendo uma coisa e encaixo outra sem a menor simetria.

Acho que estou ficando velha! E não é por meu aniversário estar se aproximando, é porque a memória anda falhando até para lembrar dos nomes. Uso recursos sonoros para chamar a atenção. Um “psiu” cai bem, apesar da falta de formalidade. Acabamos nos aperfeiçoando com a idade.

Agosto tem proporcionado dias lindos. Vejo a manhã por entre as persianas da sala enquanto o professor não chama minha atenção. Olho para a casa dos padres com a devida atenção, tentando contar quantos coqueiros existem no jardim.

O dia acaba passando bem rápido, ando ocupada em achar respostas para as incógnitas matemáticas. Nunca tive tão poucas preocupações pessoais como neste ano. Devia virar terapia fazer milhares de provas, assim, a preocupação toma outro rumo e os problemas não adquirem importância.

domingo, 5 de agosto de 2007

Ela chegou, vagarosamente e despretensiosamente, nem bateu na porta. Saiu entrando sem pedir licença e se instalou como se estive em casa. Não estava errada, afinal estava voltando para casa, mas fazia tanto tempo que não tinha notícias suas que até havia esquecido que ela também morava ali, pelo menos uma vez por ano ela ficava ali por trinta dias, mas fazia anos que as férias não davam sinais de vida.

Como planejado dessa vez não tínhamos planos, a idéia era deixar fluir. Dito e feito começamos bem, indo de lá pra cá sem compromisso algum. Mas no final de semana é mais fácil afinal todos estão enlaçados com o feriado, todos estão no clima de festa e redenção. Amanhã que começa nosso cotidiano, espero que seja um casamento feliz.

No entanto todo esse alvoroço pouco adiantou, seu sorriso se esboça na minha imaginação muitas vezes por dia, todas as noites temos dormido juntos depois que seus olhos curiosos chegam. Quando acordo as lembranças se despendem e a frustração dá bom dia, a cama vazia é a prova real daquele sonho que não cessa.

Ao mesmo tempo, a pressa e a ansiedade estão cada vez mais distantes. Aceitar o timing da vida é uma arte, assim começo a pintar esse quadro relaxadamente. Afinal acredito no ditado que diz: o que tiver que ser será. Por isso vivo esse sonho de olhos bem abertos e pensamentos bem conscientes. Deve ser auto-proteção do meu inconsciente...

sábado, 4 de agosto de 2007

Recusei um convite. Tudo indicava que aquilo era o fim da picada. Neguei mesmo uma saída!

Não tive tempo de me desculpar. Achei que era certo e sai dizendo, contando que havia muito a se fazer. Imaginava o frio que faria no plano daquele dia de praia.

Perdi minhas apostas! Fez um dia lindo. O céu azul piscina realçava a cor dos olhos azuis que eu não tinha, adentrando íris adentro.

Sua imaginação sugere que eu corro adiante e fujo sem dar boas desculpas, eu percebo isso sem nem ver seu rosto.

Meus estudos andam concorridos, ora escrevo ora tento me comunicar. Em vão! Tudo em vão! Nosso glamour cibernético deixa muitas lacunas.

Acordei pensando nisso, imaginando seus gritos, caso eu recusasse um convite seu. Foi então que a realidade se aproximou.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Nossas vidas parecem se complementar. Nossa pressa é intima, seguindo e contemplando a distância que já é por nós conhecida.

Logo minhas provas virão e seus “brothers” também. Não te parece estranha essa correria? Não me acostumo com esse caos diário. Há tanta informação que esqueço tudo no próximo outdoor. Será que não sente o mesmo quando corta as ruas sobre quatros rodas?

Acho mesmo que você precisa de férias! Sem querer ofender! Essa falta de tempo nos devora. Precisa disso antes que eu descubra quem é você.